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AJOURNEMENT POEME DE FERNANDO PESSOA (ÁLVARO DE CAMPOS – 1928) ADIAMENTO

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Poème de Fernando Pessoa





Traduction – Texte Bilingue
tradução – texto bilíngüe

Traduction Jacky Lavauzelle


LITTERATURE PORTUGAISE
POESIE PORTUGAISE

Literatura Português

FERNANDO PESSOA
1888-1935

ÁLVARO DE CAMPOS
( heterónimo – hétéronyme)
Tavira ou Lisboa, 13 ou 15 de Outubro de 1890 — 1935
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Fernando Pesso Literatura Português Poesia e Prosa Poésie et Prose Artgitato

 





Poesia de Fernando Pessoa




ADIAMENTO
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AJOURNEMENT

 

14 de abril de 1928
14 avril 1928
Primeira publicação in Solução Editora, nº1. Lisboa 1929
Première Publication 1929

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Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Après-demain, oui, juste après-demain …
 Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
Je vais prendre tout demain rien que pour penser à après-demain,
E assim será possível; mas hoje não…
Et là ce sera possible ; mais pas aujourd’hui …
Não, hoje nada; hoje não posso.
Non, rien aujourd’hui ; aujourd’hui, je ne peux pas.
  A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
La persistance confus de ma subjectivité objective,
  O sono da minha vida real, intercalado,
Le sommeil de ma vie réelle, intercalé,
O cansaço antecipado e infinito,
Une précoce et infinie fatigue,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Une fatigue démesurée pour attraper un tramway…
Esta espécie de alma…
Ce genre d’âme …
Só depois de amanhã…
Seulement après-demain …
  Hoje quero preparar-me,
Aujourd’hui, je veux me préparer,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Je veux me préparer pour demain pour que je puisse penser à son lendemain …
 Ele é que é decisivo.
C’est ce dernier qui est décisif.
 Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
J’ai déjà un plan ; mais aujourd’hui aucune trace des plans …
 Amanhã é o dia dos planos.
Demain sera le jour des plans.





Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Demain, je siégerai devant mon bureau pour conquérir le monde ;
 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Mais seulement je conquerrai le monde après-demain …
Tenho vontade de chorar, 
Je veux pleurer,
  Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Cette envie de pleurer me prend soudainement, de l’intérieur…
 Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Non, vous n’en saurez pas plus, c’est un secret, je n’en parlerai pas.
 Só depois de amanhã…
Seulement après-demain …
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Comme enfant, le cirque du dimanche pour toute la semaine m’amusait.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Aujourd’hui, seul me divertit le cirque du dimanche de toute la semaine de mon enfance …





Depois de amanhã serei outro,
Après-demain, je serai un autre,
A minha vida triunfar-se-á,
Ma propre vie d’elle-même triomphera,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Toutes mes vraies qualités d’intelligence, de savoir et de pratique
  Serão convocadas por um edital…
Seront convoquées par un édit…
  Mas por um edital de amanhã…
Mais par un édit de demain …
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Aujourd’hui, je veux dormir, demain je rédigerai …
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Aujourd’hui, quel spectacle pourrait me renvoyer dans l’enfance ?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Même pour m’acheter des billets, ce sera demain,
  Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Car c’est après-demain que le spectacle aura lieu…

 Fernando Pessoa et Costa Brochado
Café Martinho da Arcada
6 juin 1914

*

 




Antes, não…
Avant, non …
 Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Après demain, j’aurai la pose publique que je n’étudierai que demain.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Après-demain, enfin je serai ce que maintenant ne peut pas être.
 Só depois de amanhã…
Seulement après-demain …







 Tenho sono como o frio de um cão vadio.
J’ai sommeil à présent comme le froid tombe sur un chien errant.
Tenho muito sono.
Je suis très fatigué.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Demain, je dirai les mots… ou après-demain …
  Sim, talvez só depois de amanhã…
Oui, peut-être seulement après-demain …

O porvir…
L’avenir…
Sim, o porvir…
Oui, l’avenir…









 


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ÁLVARO DE CAMPOS

 

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ADDIAMENTO
AJOURNEMENT

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FERNANDO PESSOA
POESIA

O QUE É A METAFÍSICA? Fernando Pessoa Traduction Française

O que é a Metafisica ?
LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

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O QUE É A METAFÍSICA Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française


 O QUE É A METAFÍSICA?
Qu’est-ce que la métaphysique ?

1924

 

Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio «Athena», a filosofia — isto é, a metafísica — não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece‑me que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não‑ciência. Pensa Fernando Pessoa, naturalmente, que como a metafísica não chega, nem aparentemente pode chegar, a uma conclusão verificável, não é uma ciência. Esquece que o que define uma actividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência — conhecer factos, e não ao da arte — substituir factos. As ciências realizam esse fim de conhecer factos — realizam‑no umas mais, outras menos — porque os factos que pretendem conhecer são definidos. Mas, antes de conhecidos, todos os factos são in‑definidos; e toda a ciência, em relação a eles, está no estado da metafísica. Por isso chamarei à metafísica, não uma arte, mas uma ciência virtual, pois que tende para conhecer e ainda não conhece. Se ficará sempre virtual, se o não ficará; se há outro «plano» ou vida em que deixe de ser virtual — são coisas que nem eu nem Fernando Pessoa sabemos, porque verdadeiramente não sabemos nada.
De l’avis de Fernando Pessoa, exprimé dans l’essai «Athena», la philosophie – autrement-dit la métaphysique – n’est pas une science, mais un art. Je ne le pense pas. Il semble que Fernando Pessoa confonde ce que l’art est avec ce que la science n’est pas. Maintenant, ce qui n’est pas de la science, n’est pas forcément de l’art : c’est tout simplement de la non-science. Fernando Pessoa pense, bien sûr, que la métaphysique ne pouvant apparemment se rendre à une conclusion vérifiable, ne peut donc pas être une science. Il en oublie que ce qui définit une activité : c’est sa fin ; et la fin de la métaphysique est identique à la fin de la science – la connaissance des faits, et non à fin de l’art – qui remplace les faits. Les sciences cherchent à connaître les faits – plus ou moins- parce que les faits qu’ils ont l’intention de rencontrer sont définis. Mais avant d’être connus, tous les faits sont in-définis ; et toute la science, en relation à eux,  est dans le même état que la métaphysique. Je dis donc : la métaphysique, n’est pas un art, mais une science virtuelle, car elle tend à connaître mais ne sait pas encore. Sera t-elle toujours virtuelle ? Y a-t-il un autre «plan» ou une autre vie sans qu’elle cesse d’être virtuelle ? – ce sont des choses que ni moi ni Fernando Pessoa ne savons , parce que vraiment nous ne savons rien !

Repare Fernando Pessoa que a sociologia é uma ciência tão virtual como a metafísica. A que conclusão, escassa que seja, se chegou já em sociologia? Positivamente, a nenhuma. Um congresso de sociologia, ocupando‑se de ao menos definir essa ciência, não o conseguiu. A política moderna é tão complicadamente confusa porque o espírito moderno obriga‑nos (talvez sem razão) a buscar uma ciência para tudo, e, como aqui não temos uma ciência mas só a preocupação de a ter, cada um toma por absoluta a sociologia relativa, isto é, nula, que inventou ou que, mais ou menos estropiadamente, assimilou de outro que também do assunto não sabia nada. Compare Fernando Pessoa as discussões dos escolásticos com, sobretudo, as dos socialistas, comunistas e anarquistas modernos. É o mesmo especulativismo de manicómio, ressalvando que os escolásticos eram subtis, disciplinados no raciocínio e inofensivos, e os modernos «avançados» (como a si próprios se chamam, como se houvesse «avanço» onde não há ciência) são estúpidos, confusos e, dada a pseudo‑semicultura da época, incómodos. Discutir quantos anjos podem convenientemente fixar‑se na ponta de uma agulha, pode ser improfícuo — e é com certeza mais engraçado — que discutir qual será ou deve ser o regime humanitário (e porque não anti‑humanitário?) e equitativo (e porque não mais injusto e desigual do que o presente?) em que viverá a humanidade futura (e que sabemos nós, que ignoramos toda e qualquer lei sociológica, que desconhecemos portanto, mesmo sob a acção delas, quais são as forças naturais que actualmente nos regem e arrastam e para onde, o que será a humanidade futura, o que quererá — pois pode não querer para si o que qualquer de nós quer para ela —, ou mesmo se haverá humanidade futura, ou um cataclismo destruidor da terra, e da nossa sociologia ainda incompleta, e dos humanitarismos de bizantinos que não sabem ler?).
Je fais remarquer à Fernando Pessoa que la sociologie est une science virtuelle comme la métaphysique. Quelle conclusion, si petite soit-elle, a déjà été atteinte en sociologie ? Positivement : pas une ! Un congrès de la sociologie, qui prenait grand soin de définir au moins cette science, n’y est absolument pas parvenu . La politique moderne est  confuse, car l’esprit moderne nous oblige (peut-être à tort) à trouver une science pour tout, et que nous ne disposons pas, en fait, ici, d’une science ; nous avons seulement le souci d’en avoir une ; nous prenons la sociologie relative comme un absolu, c’est à dire nulle,  inventée et transformée par d’autres qui ne connaissaient également rien de la question. Que Fernando Pessoa compare les discussions des scolastiques, en particulier aux discussions des socialistes, des communistes et des anarchistes modernes : les mêmes spéculations alambiquées ; en soulignant toutefois que les scolastiques étaient, eux, subtils, avec un raisonnement discipliné et inoffensif, alors que les «progressistes» modernes (comme ils se nomment, comme si nous avions du «progrès» là où il n’y a pas de science) sont stupides, confus et compte tenu de la pseudo-semi-culture du temps, sans tracas. Nous pouvons longtemps discutez combien d’anges peuvent être commodément fixés à la pointe d’une aiguille : c’est peut être inutile – mais au moins c’est plus drôle  – que de discuter de ce qui sera ou ce que devrait être l’humanitarisme et l’équité  (et pourquoi pas anti-humanitaire?) (et pourquoi pas plus injuste et inégal que celui présent ?) dans lequel l’humanité vivra dans l’avenir (et nous savons que nous ignorons toute loi sociologique ; nous ne savons même pas, même sous l’action d’entre eux, ce que sont les forces de la nature qui nous gouvernent actuellement et où sera la future humanité,  ou même s’il y aura une humanité future ou un cataclysme destructeur de la terre et destructeur de notre sociologie encore incomplète et de ces humanitarismes byzantins qui ne savent même pas lire ?).

O QUE É A METAFÍSICA Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française 2
Repare ainda Fernando Pessoa no facto — que aliás cita em outra conexão — de que a ciência tende para ser matemática à medida que se aperfeiçoa para reduzir tudo a fórmulas «abstractas», precisas, onde é máxima a libertação das «equações pessoais», isto é, dos erros de observação e coordenação produzidos pela falibilidade dos sentidos e do entendimento do observador ( 1). Ora «fórmulas abstractas» é justamente o que a metafísica procura. E a matemática, nos seus níveis «superiores», confina com a metafísica, ou, pelo menos, com ideias metafísicas. Tudo isto não quer dizer, é certo, que a metafísica venha a ser mais que uma ciência virtual, ou que não venha a ser mais. Quer dizer apenas que ela é efectivamente, não uma arte, mas uma ciência virtual.
Je dis également à Fernando Pessoa qu’il mentionne d’ailleurs, dans un autre contexte que la science tend à être mathématique quand elle se perfectionne en réduisant tout à des formules « abstraites », précises, où la libération maximum des « équations personnelles » s’opèrent, que ce sont les erreurs d’observation et de coordination produites par la faillibilité des sens et la compréhension de l’observateur. Maintenant ces «formules abstraites» sont précisément celles  que recherche la métaphysique. Et le calcul à des niveaux «les plus élevés», bute contre la métaphysique, ou au moins sur des idées métaphysiques. Tout cela ne signifie pas, bien sûr, que la métaphysique serait plus qu’une science virtuelle, ou ne serait pas plus. Je veux dire seulement qu’elle n’est en fait pas un art, mais bien une science virtuelle.
Pasmarão talvez destas considerações os que leram o meu Ultimatum, no «Portugal Futurista» (1917). Nesse Ultimatum lê‑se sobre a filosofia uma opinião que parece, salvo que a precedeu, exactamente a mesma que a de Fernando Pessoa. Não é bem assim. A conclusão prática pode ser realmente idêntica, mas a conclusão teórica, que é a prática para uma teoria, é diferente.
Peut-être seront étonnés par ces considérations ceux qui ont lu mon Ultimatum, dans le « Portugal Futur « (1917). Dans cet Ultimatum on peut lire sur la philosophie une opinion qui semble, à l’exception qu’elle l’a précédée, exactement la même que celle de Fernando Pessoa. Pas tout à fait. La conclusion pratique peut paraître  effectivement identique, mais la conclusion théorique, qui est la pratique de la théorie, en est toute autre.

A minha teoria, em resumo, era que: 1.° — se deve substituir a filosofia por filosofias, isto é, mudar de metafísica como de camisa, substituindo à metafísica procura da verdade, a metafísica procura da emoção e do interesse; e que 2.º — se deve substituir a metafísica pela ciência.
Ma théorie, en bref, est que:
primo : vous devez remplacer la philosophie par les philosophies, ce qui revient à changer de métaphysique comme chemise, en remplacent la recherche métaphysique de la vérité par la métaphysique comme recherche de l’émotion et de l’intérêt ;
et secundo : la métaphysique devrait être remplacée par la science.

É fácil de ver como esta teoria, tendo na prática quase os mesmos resultados que o pensamento de Fernando Pessoa, é diferente dele. Não rejeito a metafísica, rejeito as ciências virtuais todas, isto é, todas as ciências que não se aproximaram ainda do estado, vá, «matemático»; mas, para não desaproveitar essas ciências virtuais, que, porque existem, representam uma necessidade humana, faço artes delas, ou antes, proponho que se faça artes delas — da metafísica, metafísicas várias, buscando arranjar sistemas do universo coerentes e engraçados, mas sem lhes ligar intenção alguma de verdade, exactamente como em arte se descreve e expõe uma emoção interessante, sem se considerar se corresponde ou não a uma verdade objectiva de qualquer espécie.
Il est facile de voir combien cette théorie, alors qu’en pratique nous obtenons à peu près les mêmes résultats que la pensée de Fernando Pessoa, est différente de la sienne. Je ne rejette pas la métaphysique, mais je rejette toutes sciences virtuelles, toutes les sciences qui ne se rapprochent pas du stade, que nous appellerons, «mathématique» ; mais pour éviter de perdre ces sciences dites virtuelles, qui, parce qu’elles existent, représentent un besoin humain, j’en fait des arts, ou plutôt, je vous propose qu’on en fasse des arts de la métaphysique, nous aurons diverses métaphysiques, essayant d’organiser des systèmes d’univers cohérents et drôles, mais sans avoir la moindre intention de vérité, exactement comme ce qui se décrit dans l’art et qui présente une émotion intéressante, sans tenir compte si cela correspond ou non à une vérité objective d’aucune sorte.

É por esta mesma razão que substituo por artes as ciências virtuais no campo subjectivo, para não desamparar o desejo ou ambição humana que as faz existir, e exige, como todos os desejos, uma satisfação, embora ilusória, que substituo as ciências virtuais pelas ciências reais no campo objectivo.
C’est pour cette même raison que je substitue les arts par les sciences virtuelles dans le domaine subjectif, afin de ne pas abandonner le désir ou l’ambition humaine qui est à l’origine, et qui nécessite, comme chaque désir, la satisfaction, certes illusoire, que  je substitue les sciences virtuelles par les sciences réelles dans le champ objectif.

Ponhamos ainda mais a claro a discordância entre mim e Fernando Pessoa. Para ele a metafísica é essencialmente arte, e a sociologia, de que não fala, é naturalmente ciência. Para mim são, ambas e igualmente, essencialmente ciências, não o sendo porém ainda, nem talvez nunca, mas por uma razão extrínseca e não intrínseca. Proponho pois que se substituam por artes enquanto não são efectivamente ciências, o que pode ser que seja sempre, dando‑se então na prática, entre a minha teoria e a de Fernando Pessoa, aquela coincidência de efeitos que não é raro entre teorias não só diversas, mas absolutamente opostas.
Un mot encore sur ce désaccord manifeste que j’ai avec Fernando Pessoa. Pour lui, la métaphysique est essentiellement un art, et la sociologie, dont il ne parle pas, est naturellement la science. Pour moi, elles sont toutes les deux également et essentiellement des sciences, mais n’en sont pas encore, ou n’en seront peut-être jamais, mais pour une raison extrinsèque et non pour une raison intrinsèque. Je propose donc que l’on substitue ces deux-là par des arts, tant qu’elles ne sont des sciences, peut-être pour toujours. Ainsi entre ma théorie et celle de Fernando Pessoa aurons nous une coïncidence d’effets ; et ceci n’est pas rares dans les théories non seulement différentes, mais aussi celles diamétralement opposées.

Esclareço ainda mais … A metafísica pode ser uma actividade científica, mas também pode ser uma actividade artística. Como actividade científica, virtual que seja, procura conhecer; como actividade artística, procura sentir. O campo da metafísica é o abstracto e o absoluto. Ora o abstracto e o absoluto podem ser sentidos, e não só pensados, pela simples razão de que tudo pode ser, e é, sentido. O abstracto pode ser considerado, ou sentido, como não‑concreto, ou como directamente abstracto, isto é, relativamente ou absolutamente. A emonão do abstracto como não‑concreto — isto é, indefinido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento religioso, incluindo neste sentimento tanto a religiosidade do Além, como a religiosidade laica de uma humanidade futura, porque, desde que se forme uma visão de uma humanidade definitiva, ou de um ideal político definitivo, isto é, absoluto, sente‑se não concretamente, porque se sente em relacão à realidade concreta, mas em oposição ao «fluxo e refluxo eterno», que é a base dela. A emocão do abstracto como abstracto — isto é, definido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento metafísico. O sentimento metafísico e o religioso são directamente opostos, o que se vê claramente na infecundidade metafísica (a falta de grandes originalidades metafísicas) em épocas como a nossa, em que a especulação social utópica é o fenómeno marcante, e não haveria metafísica alguma se não houvesse deficiência da outra parte do espírito religioso, e aquela liberdade de pensamento que estimula toda a espécie de especulação; ou como a Idade Média, perdida na adaptação teológica de metafísicas gregas, e em cuja noite caliginosa só de vez em quando brilha metafisicamente o astro breve de uma heresia.
Précisons cela un peu plus… La métaphysique peut être une activité scientifique, mais peut également être une activité artistique. Comme science, pour virtuelle qu’elle puisse être, elle cherche à connaître ; comme activité artistique, elle cherche la sensation. Le champ de la métaphysique est l’abstrait et l’absolu. L‘abstrait absolu peut être ressenti, non seulement pensé, pour la simple raison que tout peut être, et est, de sens. L’abstrait peut être considéré, ou senti, comme non concret, ou directement comme abstrait, un abstrait relatif ou absolu. L’émotion de l’abstrait, comme négation du concret- ce qui est, non  indéfini – est la base, ou même l’essence du sentiment religieux, qui inclut ce sentiment à la fois de la religiosité de l’Ailleurs, comme la religion laïque de l’humanité future, pour aussi longtemps que se forme une vision d’une humanité définitive, ou d’un idéal politique définitif, qui est, absolu, ne se sent pas concrètement parce que nous nous sentons par rapport à la réalité concrète, mais par opposition au « flux et au reflux éternel », qui en est la base. L’émotion de l’abstrait comme abstrait – qui est, défini – est la base, ou même l’essence du sentiment métaphysique. Les sentiments métaphysique et religieux sont juste à l’opposé l’un de l’autre ; ce qui est clairement visible dans l’infertilité  métaphysique (le manque d’une grande originalité métaphysique) à une époque comme la nôtre, où la spéculation sociale utopique est le phénomène marquant ; il n’y aurait aucune sorte de métaphysique s’il n’y avait de carence d’une autre partie de l’esprit religieux, et de cette liberté de pensée qui stimule toutes sortes de spéculations ; ou comme au Moyen Age, perdu dans l’adaptation théologique de la métaphysique grecque, et dont la nuit noire ne brille parfois métaphysiquement que par les lumières de l’hérésie.

O sentimento religioso é inteiramente irracionalizável, nem pode haver teologia, ou sociologia utópica, senão por engano ou doença. O sentimento metafísico é racionalizável, como todo o sentimento de uma coisa definida, que basta tornar‑se inteiramente definida para se tornar matéria racional, ou científica. Proponho eu, simplesmente, que a matéria da metafísica, enquanto não está inteiramente definida, e portanto em estado de se pensar, e a metafísica se tornar ciência, seja ao menos sentida, e a metafísica seja arte; visto que tudo, bom ou mau, verdadeiro ou falso, tem afinal, porque existe, um direito vital a existir.
Le sentiment religieux est entièrement irrationalisable ; il ne peut y avoir de théologie, de sociologie utopique, sauf par erreur ou par maladie. Le sentiment métaphysique est rationalisable, comme tous les sentiments d’une chose certaine, qui vient de devenir entièrement une matière rationnelle ou scientifique. Je propose simplement que la matière de la métaphysique, tant qu’elle n’est pas entièrement définie, et donc dans un état de se penser, la métaphysique devenant une science, soit au moins sentie, et que la métaphysique soit de l’art ; puisque tout, bon ou mauvais, vrai ou faux, a, après tout, a le droit vital d’exister.

A minha teoria estética e social no Ultimatum resume‑se nisto: na irracionalização das actividades que não são (pelo menos ainda) racionalizáveis. Como a metafísica é uma ciência virtual, e a sociologia é outra, proponho a irracionalização de ambas — isto é, a metafísica tornada arte, o que a irracionaliza porque Ihe tira sua finalidade própria; e a sociologia tornada só a política, o que a irracionaliza porque a torna prática quando ela é teórica. Não proponho a substituição da metafísica pela religião e da sociologia pelo utopismo social, porque isso seria, não irracionalizar, mas sub‑racionalizar essas actividades, dando‑lhes, não uma finalidade diversa, mas um grau inferior da sua própria finalidade.
Mon esthétique et ma théorie sociale dans l’Ultimatum se résument à ceci : l’irrationalisation des activités qui ne sont pas (encore) rationalisables. Comme la métaphysique est une science virtuelle, et la sociologie en est une autre, je propose l’irrationalisation des deux – c’est à dire que la métaphysique se transforme en art, qui irrationalise parce qu’elle perd son propre but ; et la sociologie ne fait plus que de la politique, ce qui l’irrationalise parce qu’elle devient pratique quand elle est théorique. Je ne propose pas le substitution de la métaphysique par la religion ni la sociologie par l’utopisme social, car il ne serait pas irrationaliser, mais sous-rationaliser ces activités, leur donnant, non un but, mais un degré inférieur à leur propre finalité.

É isto, em resumo, o que defendi no meu Ultimatum. E as teorias, política e estética, inteiramente originais e novas, que proponho nessa proclamação, são, por uma razão lógica, inteiramente irracionais, exactamente como a vida.
Voici, en bref, ce que je soutenais dans mon Ultimatum. Et les théories, politiques et esthétiques, entièrement originales et nouvelles, que je vous propose dans cette proclamation sont, pour une raison logique, entièrement irrationnelles, tout comme la vie.

***
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
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AVISO POR CAUSA DA MORAL Fernando Pessoa Traduction Française Avertissement à cause de la morale

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

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AVISO POR CAUSA DA MORAL Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française


AVISO POR CAUSA DA MORAL
AVERTISSEMENT A CAUSE DE LA MORALE

1929

 

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…
Lorsque le public a appris que les étudiants de Lisbonne, en disant des obscénités aux dames qui passaient, s’étaient engagés afin de moraliser tout le monde, ce public a eu une exclamation d’impatience. Oui exactement l’exclamation qui vient de vous échapper, à vous lecteur

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.
Être jeune c’est ne pas être vieux. Être vieux, c’est avoir des opinions. Être jeune, c’est ne jamais s’arrêter aux opinions. Être jeune, c’est de laisser les autres aller seul au diable avec les points de vue qu’ils ont, bons ou mauvais bons ou mauvais, on ne sait jamais lequel nous dirige vers le diable.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Les garçons de la vie des écoles s’en prennent aux écrivains qui ne passent pas pour les mêmes raisons qu’ils s’en prennent aux dames qui passent. S’ils ne connaissent pas la raison avant de la leur dire, aussi ne la sauront-il pas plus tard. S’ils pouvaient savoir, ils n’enquiquineraient ni les dames ni les écrivains.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.
Quelle misère pour nous d’avoir à supporter cela! Enfants : étudiez, amusez-vous et taisez-vous ! Etudiez les sciences, si vous étudiez les sciences ; étudiez les arts si vous étudiez les arts; étudiez les lettres si vous étudiez les lettres. Amusez-vous avec les femmessi vous les aimez ; amusez-vous autrement, si vous préférez autrement. Tout est juste, parce que cela se joue avec le corps de celui qui s’amuse.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.
Mais pour le reste, taisez-vous. Taisez-vous le plus discrètement possible.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Parce qu’il n’y a que deux façons d’être droit. L’une est de se taire, ce qui convient aux jeunes. L’autre est de se contredire, mais seulement réservée pour quelqu’un de plus âgé.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.
Tout le reste est une grande nuisance pour ceux qui est présent par hasard. Et la société dans laquelle nous sommes nés est le lieu du hasard par excellence.

Europa, 1923
Europe, 1923

APONTAMENTO Fernando Pessoa Traduction Française NOTE

Apontamento Fernando Pessoa
LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

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Apontamento Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française Note

APONTAMENTO
Note

1929

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A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Mon âme s’est cassée comme un vase vide.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Elle est tombée dans les escaliers.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Elle est tombée des mains de la femme de ménage négligente.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Elle est tombée, brisée en plus de morceaux que n’en contenait le vase lui-même.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Ânerie ? Impossible ? Je ne sais pas!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
J’ai plus de sentiments que je ne n’en avais quand je me sentais.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Je suis une dispersion des éclats sur un paillasson à secouer.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
J’ai fait  du bruit comme un vase qui se fracasse.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada
Les dieux qui sont là regardent par-dessus la rampe de l’escalier
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Et regardent les pièces que la femme de ménage a fait de moi.

Não se zangam com ela.
Ils ne se fâchent pas avec elle.
São tolerantes com ela.
Ils sont tolérants avec elle.
O que eu era um vaso vazio?
N’étais-je pas qu’un vase vide?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Ils regardent les morceaux absurdement conscients,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Mais conscients d’eux-mêmes, et non conscients de ça.

Olham e sorriem.
Ils regardent et ils sourient.
 Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Ils sourient tolérants au geste involontaire de la femme de ménage.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Se répandent sur la moquette du grand escalier des étoiles.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
Un éclat brille, face à l’extérieur brillant, entre les étoiles.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Mon œuvre ? Mon âme principale ? Ma vie?
Um caco.
Une épave.
 E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
Et les dieux le regardent en particulier ne sachant pas pourquoi celui-ci est resté là.

****
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

 

Opiário (Fumerie) Fernando Pessoa Traduction Française

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Opiário Fumerie Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

 

Opiário
FUMERIE

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**
Mars 1914

***

Opiário

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
C’était bien avant l’opium que mon âme était malade.
Sentir a vida convalesce e estióla
Sentir la vie convalescent et faible
E eu vou buscar ao ópio que consóla
Et je vais chercher la consolation dans l’opium
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Un Orient à l’orient de l’Orient.

*

Esta vida de bórdo há-de matar-me.
Cette vie de bord va me tuer.
São dias só de febre na cabeça
Ce ne sont que des jours enfiévrés dans la tête
E, por mais que procure até que adoeça,
Et, je recherche jusqu’à m’en rendre malade,
já não encontro a móla pra adaptar-me. 
Je n’ai pas trouvé ce quelque chose pour m’adapter.

*

Em paradoxo e incompetência astral
Dans le paradoxe et l’incompétence astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Je vis le plissement d’or de ma vie,
Onda onde o pundonor é uma descida
l’onde de l’orgueil est une descente
E os próprios gozos gânglios do meu mal.
Et les noeuds de mon mal sont une joie.

*

É por um mecanismo de desastres,
Il existe un mécanisme de catastrophes,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Un engrenage de volants faussés,
Que passo entre visões de cadafalsos
Je passe entre les visions d’échafauds
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.
Un jardin avec des fleurs dans l’air sans tiges.

*

Vou cambaleando através do lavôr
Je vais en zigzaguant au travers
Duma vida-interior de renda e laca.
D’une vie-intérieure de de vie et de laque.
Tenho a impressão de ter em casa a fáca
J’ai l’impression d’avoir à la maison le couteau
 Com que foi degolado o Precursôr.
Avec lequel le Précurseur a été décapité.

*

Ando expiando um crime numa mala,
J’expédie un crime dans une valise,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Qu’un grand-père a commis avec raffinement.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
J’ai les nerfs sur la potence, en paquets de vingt,
  E caí no ópio como numa vala.
Et je suis tombé dans l’opium comme on tombe dans un fossé.

*

Ao toque adormecido da morfina
Dans les bras endormi de la morphine
Perco-me em transparências latejantes
Je me perds dans de transparentes secousses
  E numa noite cheia de brilhantes,
Et une nuit pleine d’éclats,
Ergue-se a lua como a minha Sina.
Se lève la lune comme se lève mon destin.

*

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Moi, qui fus toujours un mauvais élève, maintenant
Não faço mais que ver o navio ir
Je ne fais plus que regarder le navire aller
Pelo canal de Suez a conduzir
Par le  Canal de Suez qui conduit
A minha vida, cânfora na aurora.
Ma vie, camphre dans l’aurore.

*

Perdi os dias que já aproveitara
Je perdis les jours que j’avais amassés
 Trabalhei para ter só o cansaço
A travailler pour avoir seulement de la fatigue
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Qui est maintenant en moi une sorte de bras
Que ao meu pescôço me sufoca e ampara.
A mon cou qui m’étouffe et me soutient.

*

E fui criança como toda a gente.
Et je fus un enfant comme tout le monde.
Nasci numa província portuguêsa
Je suis né dans une province portugaise
 E tenho conhecido gente inglêsa
Et les anglais que je connais
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
disent que je sais parfaitement l’anglais.

*

 Gostava de ter poemas e novelas
Je voudrais avoir des poèmes et des romans
Publicados por Plon e no Mercure,
Publiés chez Plon et au Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Mais il est impossible que cette vie dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!
Si dans ce voyage je ne trouvais pas de tempête !

*

A vida a bordo é uma coisa triste,
La vie à bord est une chose triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Bien que nous nous amusions parfois.
Falo com alemães, suecos e ingleses
Je parle l’allemand, le suédois et l’anglais
  E a minha mágoa de viver persiste.
Et ma douleur de vivre persiste.

*

Eu acho que não vale a pena ter
Je ne crois pas utile d’avoir
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A voyager à l’Est et voir l’Inde et la Chine.
A terra é semelhante e pequenina
La terre est semblable et petite
E há só uma maneira de viver.
Et il n’y a qu’une seule façon de vivre.

*

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Donc, je prends de l’opium. C’est un remède
Sou um convalescente do Momento.
Je suis un convalescent du Moment.
Moro no rés-do-chão do pensamento
Je vis au rez-de-chaussée de la pensée
E ver passar a Vida faz-me tédio.
Et voir passer la vie m’ennuie.

*

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Je fume. Je fatigue. Ah ! une terre où, enfin,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Très à l’est, je ne suis pas tout à fait à l’ouest !
Pra que fui visitar a Índia que há
Pourquoi suis-je allé visiter l’Inde
Se não há Índia senão a alma em mim?
S’il n’y a pas d’Inde sinon dans l’âme en moi ?

*

Sou desgraçado por meu morgadio.
Je suis déshonoré par mon antériorité de naissance.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Les tsiganes ont volé ma Chance.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Peut-être même ne trouverai-je pas au pied de la mort
Um lugar que me abrigue do meu frio.
Un endroit qui m’abritera de mon froid.

*

 Eu fingi que estudei engenharia.
Je prétendais étudier le génie.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Je vécu en Ecosse. Je suis allé en Irlande.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Mon cœur est comme une marche de grand-mère
 Pedindo esmola ás portas da Alegria.
Mendiant aux portes de la Joie.

*

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Ne viens pas près de Port-Saïd, navire de fer !
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Tourne à droite,  je ne sais pas par où.
Passo os dias no smokink-room com o conde –
Je passe les jours dans le fumoir avec le comte
Um escroc francês, conde de fim de enterro.
Un escroc français, un comte de fin d’enterrement.

*

Volto à Europa descontente, e em sortes
Je rentre en Europe malheureux, et prêt
  De vir a ser um poeta sonambólico.
A devenir un poète somnambule.
  Eu sou monárquico mas não católico
Je ne suis pas catholique, mais monarchique
E gostava de ser as coisas fortes.
Et je souhaite être comme les choses fortes.

*

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Je souhaite avoir des croyances et de l’argent,
Ser vária gente insípida que vi.
Être les insipides personnes que j’ai vues.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Aujourd’hui, après tout, je ne suis ici,
Num navio qualquer um passageiro.
Sur un navire quelconque qu’un passager.

*

Não tenho personalidade alguma.
Je n’ai aucune personnalité qui soit.
É mais notado que eu esse criado
Il est plus remarquable que moi ce garçon
De bordo que tem um belo modo alçado
De bord  qui a une belle manière élégante
  De laird escocês há dias em jejum.
De lord écossais pendant des jours à jeun.

*

Não posso estar em parte alguma.
Je ne peux pas être partout.
A minha Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
Ma patrie est là où je ne suis pas. Je suis malade et faible.
O comissário de bordo é velhaco.
Le commissaire de bord est un voyou.
Viu-me co’a sueca… e o resto ele adivinha.
Il m’a vu avec la suédoise et le reste il le devine.

*

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Un jour, je vais faire un scandale ici à bord,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Juste pour vous entendiez parler de moi un peu plus.
Não posso com a vida, e acho fatais
Je n’en peux plus de la vie, et je pense que sont fatales
As iras com que às vezes me debórdo.
Les colères qui parfois me débordent.

*

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Je passe la journée à fumer, à boire des choses,
Drogas americanas, que entontecem,
Des drogues américaines, qui enivrent,
E eu jà taõ bêbado sem nada ! Déssem
Et je suis déjà tellement ivre avec rien ! Pour cela
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
Pas de meilleur cerveau à mes nerfs de rose.

*

Escrevo estas linhas. Parece impossível
J’écris ces lignesIl semble impossible
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
Qu’avec autant de talent, je le sente à peine !
  O fato é que esta vida é uma quinta
Le fait est que cette vie est une béance
Onde se aborrece uma alma sensível.
 se perd une âme sensible.

*

 Os inglêses são feitos pra existir.
Les Anglais sont destinés à exister.
Não há gente como esta pra estar feita
Il n’y a pas de gens comme cela à fricoter
Com a Tranquilidade. A gente deita
Avec la Tranquillité. Une personne laisse
Um vintém e sai um deles a sorrir.
Une pièce et sort, une autre rentre en souriant.

*

Pertenço a um gênero de portuguêses
Je fais partie de ces Portugais
Que depois de estar a Índia descoberta
Qui, l’Inde ayant été découverte
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Se retrouvèrent sans travail. La mort est certaine.
Tenho pensado nisto muitas vezes.
J’y ai pensé plusieurs fois.

*

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Donnez au diable la vie et ce que les gens en font !
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Je ne lis pas le livre à mon chevet.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
L’Orient me dégoûte. C’est une natte
Que a gente enróla e deixa de ser béla.
Que nous avons roulée et qui en oubliera d’être belle.

*

Caio no ópio por força. Lá querer
Par force, je tombe dans l’opiumLà, vouloir
Que eu leve a limpo uma vida destas
Que je mette au propre une vie de cette sorte
Não se pode exigir. Almas honestas
On ne peut l’exiger. Âmes honnêtes
Com horas pra dormir e pra comer,
Avec des heures pour dormir et pour manger,

*

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Quelle distance la pause ! Et cela n’est finalement que de l’envie.
Porque estes nervos são a minha morte.
Parce que ces nerfs sont ma mort.
Não haver um navio que me transporte
N’y-a-t-il pas un navire qui me transporterai
Para onde eu nada queira que o não veja!
Là où je ne souhaite rien que je ne vois pas!

*

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Maintenant ! Je me fatiguerais de la même façon.
Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Je voudrais un autre opium, plus fort, envisager
Para sonhos que dessem cabo de mim
Des rêves qui donnent une fin de moi
E pregassem comigo nalgum lôdo.
Et me jettent dans la boue.

*

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Fièvre ! Si cela n’est pas de la fièvre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
Je ne sais pas comment vous avez de la fièvre et ce que vous sentez.
O fato essencial é que estou doente.
Le fait essentiel est que je suis malade.
Está corrida, amigos, esta lebre. 
C’en est fini, les amis, pour ce lièvre.

*

Veio a noite. Tocou já a primeira
Elle est venue, la nuit. A la première
Corneta, pra vestir para o jantar.
Cloche, pour qu’ils s’habillent pour le dîner.
Vida social por cima! Isso! E marchar
La vie sociale en plus ! Eh oui! et marcher
Até que a gente saia pla coleira!
Comme ces gens qui sortent par le collier !

*

Porque isto acaba mal e há-de haver
Parce que tout cela se terminera mal et il y aura
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
(Bonjour!) Du sang et un révolver, là pour la fin
Deste desassossego que há em mim
De cette agitation en moi
E não há forma de se resolver.
Et il n’y a pas moyen de s’y résoudre.

*

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
Et qui me regarde, doit me trouver banal,
 A mim e à minha vida… Ora! um rapaz…
Moi et ma vie Regarde ! un garçon …
O meu próprio monóculo me faz
Mon propre monocle me fait
Pertencer a um tipo universal.
Appartenir à un type universel.

*

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Ah ! Combien d’âme vivront, qui marchent nichés
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Tout comme moi sur la Ligne, et comme moi mystiques !
Quantos sob a casaca característica
Combien sous le manteau caractéristique
Não terão como eu o horror à vida?
N’auront pas, comme moi, l’horreur de la vie?

*

Se ao menos eu por fora fosse tão
Si seulement j’étais du dehors
Interessante como sou por dentro!
Intéressant comment je le suis à l’intérieur!
Vou no Maelstrom, cada vêz mais pró centro.
Je suis dans le Maelstrom, chaque fois plus près du centre.
Não fazer nada é a minha perdição.
Ne rien faire, voici ma perte.

*

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Un inutile. Mais il est si juste de l’être !
Pudesse a gente desprezar os outros
Nous pourrions regarder de haut les autres
E, ainda que co’os cotovêlos rôtos,
Et, tandis qu’avec nos coudes troués,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou bélo!
Être héros, loufoque, maudit ou beau !

*

Tenho vontade de levar as mãos
Je veux lever les mains
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Dans la bouche et les mordre à fond et me faire mal.
Era uma ocupação original
Ce serait une occupation originale
E distraía os outros, os tais sãos.
Et distrayant les autres, ceux qui se disent en bonne santé.

*

O absurdo, como uma flor da tal Índia
L’absurdité, comme une fleur d’une telle Inde
Que não vim encontrar na Índia, nasce
Je ne suis pas allé trouver en Inde, est
No meu cérebro farto de cansar-se.
Dans mon cerveau fatigué d’être fatigant.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a… 
Ma vie qu’il la change, Dieu, où qu’il en finisse…

*

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Qu’Il me laisse ici, dans ce fauteuil,
Até virem meter-me no caixão.
Jusqu’à ce qu’ils viennent me chercher avec le cercueil.
Nasci pra mandarim de condição,
Je suis né pour avoir une condition de mandarin,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.
Mais je manque de calme, de thé et de natte.

*

Ah que bom que era ir daqui de caída
Oh ! Combien ce serait bon de courir 
Prá cova por um alçapão de estouro!
Dans des trous par un piège  !
A vida sabe-me a tabaco louro.
La vie a le goût du tabac blond.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.
Je n’ai rien fait de plus que de fumer la vie.

*

E afinal o que quero é fé, é calma,
Et après tout ce que je veux, c’est la foi, et calmement,
E não ter estas sensações confusas.
Et ne pas avoir ces sentiments confus.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
Dieu, qu’Il en finisse avec çà ! Ouvrez les verrous
E basta de comédias na minh’alma!
Et assez de comédies dans mon âme!

**
TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

A FERNANDO PESSOA – Traduction Française de Fernando Pessoa

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

A Fernando Pessoa Alvaro de Campos 1915 Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**
1915

***
A FERNANDO PESSOA

 

(Depois de ler seu drama estático « O marinheiro » em « Orfeu I »)
(Après la lecture de votre drame statique « Sailor » dans « Orphée I »)

Depois de doze minutos
Après douze minutes
Do seu drama O Marinheiro
De votre drame « Le Marin »
Em que os mais ágeis e astutos
Là les plus agiles et rusés
Se sentem com sono e brutos,
Ressentant le sommeil et la stupeur,
   E de sentido nem cheiro,
Et les sens inodores,
        Diz uma das veladoras 
Une des veilleuses dit
Com langorosa magia :
Avec une langoureuse magie ;
De eterno e belo há apenas o sonho. Por que estamos nós falando ainda?
D’éternel et de beau, il n’y a seulement que le rêve. Pourquoi sommes-nous toujours là à parler ?
        Ora isso mesmo é que eu ia 
Or c’était cela même que j’allais
   Perguntar a essas senhoras…
Demander à ces dames …

*****
Traduction Jacky Lavauzelle

ARTGITATO

*****

Escripto num livro abandonado em viagem Fernando Pessoa Traduction Française

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Escripto num livro abandonado em viagem 1928 Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Escripto Num Livro Abandonado Em Viagem
Ecrit dans un livre abandonné en voyage

*

1928

**

Venho dos lados de Beja.
Je viens du côté de Beja.
 Vou para o meio de Lisboa.
Je vais au cœur de Lisbonne.
 Não trago nada e não acharei nada.
Je n’apporte rien et je ne trouverai rien.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
J’ai une fatigue précoce pour ce que je vais ne pas vous trouver,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Et la nostalgie que je ressens ne vient ni du passé ni de l’avenir.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Je laisse écrite dans ce livre l’image de mon dessein mort :
FUI, COMO ERVAS, NÃO ME ARRANCARAM.
J’AI ETE, COMME L’HERBE, ET L’ON NE M’A PAS ARRACHE.

***
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

LISBON REVISITED 1923 Fernando PESSOA Traduction Française

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Lisbon revisited 1923 Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

LISBON REVISITED 1923

**

Não : não quero nada.
Non, je ne veux rien.
Já disse que não quero nada.
Je vous ai dit que je ne veux rien.

*
Não me venham com conclusões!
N’en venez pas aux conclusions!
A única conclusão é morrer.
La seule conclusion c’est mourir.
Não me falem em moral!
Ne me parlez pas de morale !
Tirem-me daqui a metafísica! 
Ne me parlez pas de métaphysique !
Não me apregoem sistemas completos,
não me enfileirem conquistas 

Ne me noyez pas de
systèmes complets,
 ne me rabâchez pas les conquêtes
 Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
  de la science (de la science, mon Dieu ! De la science !)
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 
De la science
, de l’art, de la civilisation moderne!

*

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Quel mal ai-je fait aux dieux ?

*

Se têm a verdade, guardem-na!
Si vous avez la vérité, gardez-là !

*

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Je suis un technicien, mais je n’ai de la technique
que dans la technique.
 Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
En dehors, je suis fou, avec le droit de l’être.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Avec le droit de l’être, vous entendez?

*

Não me macem, por amor de Deus!
Ne me dérangez pas, pour l’amour de Dieu!

*

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Ils voulaient me marier, futile, quotidien et imposable ?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Ils me voulaient le contraire de ça, à l’opposé de quelque chose?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Si je devais être un autre, je le ferais, à tous, suivant votre volonté.
Assim, como sou, tenham paciência!
Donc, comme je suis, soyez patient !
Vão para o diabo sem mim,
Allez au diable sans moi,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Ou laissez-moi aller seul au diable !
Para que havemos de ir juntos?
Pourquoi y aller ensemble ?

*

Não me peguem no braço!
Ne me prenez pas le bras !
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Je n’aime pas que l’on me prenne mon bras. Je veux être seul.
Já disse que sou sozinho!
Je l’ai dit que je sois seul !
 Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Oh, quel ennui que je serve de compagnie !

*

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
O ciel bleu le même que dans mon enfance
Eterna verdade vazia e perfeita!
La vérité éternelle vide et parfaite !
 Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Oh doux Tage  ancestral et muet,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Petite vérité où le ciel se reflète!
 Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
O blessure revisitée, de Lisbonne d’autrefois, d’aujourd’hui!
 Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Vous ne me donnez rien, vous ne m’en prendrez pas plus, vous n’êtes rien que je puisse ressentir !

*

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
Laissez-moi tranquille! Pas tard, jamais je ne tarde
 E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Et tandis que tardent l’Abîme et le Silence, je souhaite rester seul !

*****
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

Soneto Já Antigo Fernando Pessoa Traduction Française Sonnet déjà ancien

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

Soneto Já Antigo Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française Sonnet déjà antique

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Soneto Já Antigo
Sonnet déjà ancien

1922

**
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de 
Regarde, Daisy: quand je mourrai, tu
    dizer aos meus amigos aí de Londres, 
 diras à mes amis de Londres,
 embora não o sintas, que tu escondes 
    même si tu ne le sens pas, que tu caches
     a grande dor da minha morte.  Irás de
la grande douleur de ma mort. Tu iras
*

    Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes… 
De Londres à York, où tu es née (tu le dis
    que eu nada que tu digas acredito), 
Je ne crois rien de ce que tu dis)
contar àquele pobre rapazito

  tu diras à ce pauvre petit garçon
     que me deu tantas horas tão felizes,
qui m’a donné tant de moments de bonheur,

*

    Embora não o saibas, que morri…
Bien que tu ne saches pas que je suis mort
    mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
même lui, que j’ai tant aimé,
    nada se importará… Depois vai dar
ne s’en souciera pas Après va donner

*

    a notícia a essa estranha Cecily 
la nouvelle de cette étrange Cecily
    que acreditava que eu seria grande… 
qui croyait que je serais quelqu’un d’important
    Raios partam a vida e quem lá ande!
Foutue vie et au diable ce qui s’y promène !

*****

Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

 

   

 

TABACARIA Fernando Pessoa Traduction Française Bureau de Tabac

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português

FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

TABACARIA
Bureau de Tabac

1928

*

Fernando Pessoa Tabacaria Bureau de Tabac Artgitato Traduction Française

Não sou nada.
Je ne suis rien.
Nunca serei nada.
Je ne serai jamais rien.
Não posso querer ser nada.
Je ne peux vouloir être rien.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
A part ça, j’ai en moi tous les rêves du monde.

Janelas do meu quarto,
Fenêtres de ma chambre,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
De ma chambre comme un de ces millions d’humains qui ne sait  pas qui il est
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(Si on savait ce qu’il est, que saurions-nous ?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Vous ouvrez sur le mystère d’une rue sans cesse traversée,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Une rue inaccessible à toutes les pensées,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Réelle, incroyablement réelle, certaine, sans le savoir, certaine,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Avec le mystère des choses sous les pierres et les êtres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Avec la mort qui humidifie les murs et qui blanchit les cheveux,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Avec le Destin qui conduit le chariot de tout sur la route du rien.

*

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Aujourd’hui, je suis vaincu, comme si je connaissais la vérité.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Aujourd’hui, je suis lucide comme si je devais mourir,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Avec les choses, je suis désormais sans fraternité
 Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
Comme pour un adieu, alors que cette maison et ce côté de la rue
 A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
se transforment en une rangée de wagons, avec un départ en un coup de sifflet
De dentro da minha cabeça,
De l’intérieur de mon crâne,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Et une secousse de mes nerfs et un grincement de mes os au départ.

*

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Aujourd’hui, je suis perplexe, comme celui qui a pensé et trouvé et oublié.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
Aujourd’hui, je suis partagé entre la loyauté que je dois
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
au Bureau de Tabac de l’autre côté de la rue, comme une chose de l’extérieur réelle,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
et la sensation que tout est illusion, comme une chose de l’intérieur réelle.

*

Falhei em tudo.
J’ai échoué en tout.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
N’ayant fait aucune proposition, peut-être que tout cela n’était rien.
A aprendizagem que me deram,
Tout ce qu’on m’a appris,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
je les ai descendus par la fenêtre à l’arrière de la maison.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Je partis à la campagne avec de si grands projets.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
Et je n’ai trouvé seulement que des herbes et des arbres,
E quando havia gente era igual à outra.
et quand je rencontré des gens, ils étaient comme tout le monde.

*

 Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Je m’éloigne de la fenêtre pour m’asseoir sur une chaise. À quoi vais-je penser ?

*

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Que sais-je de ce que je serai, moi qui ne sais pas ce que je suis ?
 Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
Être ce que je pense ? Mais je crois être tant de choses !
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Et il y en a tant qui pensent être la même chose qu’il ne saurait y en avoir tant!
Gênio? Neste momento
Génie ? En ce moment
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
cent mille cerveaux se croient, en rêve, génies comme moi,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
et l’histoire n’en retiendra, qui sait ?, pas un seul ;
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Il n’en restera pas un, sinon le fumier de tant de conquêtes futures.
 Não, não creio em mim.
Non, je ne crois pas en moi.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Dans tous les asiles il y a tant de fous avec tant de certitudes !
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Moi, moi qui n’ai aucune certitude , suis-je plus assuré ou moins assuré ?
Não, nem em mim…
Non, ni en moi …
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
En combien de mansardes et de non-mansardes du monde
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
n’y a-t-il pas en ce moment des génies-pour-soi-même rêvant ?
 Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Combien d’aspirations hautes et nobles et lucides –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
Oui, véritablement hautes et nobles et lucides –
 E quem sabe se realizáveis,
Et, qui sait, qui pourraient se réaliser,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
Ne verront-elles jamais la lumière du soleil réel  et rencontreront-elles jamais une oreille attentive ?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
Le monde est pour celui qui naît pour le conquérir
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Et non pour qui rêve qu’il peut le conquérir, même s’il a raison.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
J’ai rêvé plus que Napoléon.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
J’ai serré sur mon cœur hypothétique plus d’humanité que le Christ,
 Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
j’ai fait des philosophies en secret que jamais Kant ne rédigea.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
mais je suis, peut-être serai-je toujours, le type de la mansarde,
 Ainda que não more nela;
Même si je n’y suis plus ;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
je serai toujours celui qui n’était pas né pour cela ;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
je serai toujours seulement celui qui avait du potentiel ;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
je serai toujours celui qui attendait qu’on lui ouvre la porte d’un mur sans porte
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
et qui chanta la chanson de l’Infini dans une basse-cour,
 E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Et qui entendit la voix de Dieu dans un puits condamné.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Croire en moi ? Non, ni en rien.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
Que me verse la Nature sur la tête brûlante
 
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
Son soleil, sa pluie, le vent qui rentre dans mes cheveux,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Et le reste qu’il vienne s’il le veut , ou qu’il ne vienne pas.
Escravos cardíacos das estrelas,
Esclaves cardiaques des étoiles,
  Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Nous avons conquis le monde avant de quitter l’alcôve ;
Mas acordamos e ele é opaco,
Mais nous nous réveillons et il devient sombre,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Nous nous sommes levés et il devient étrange,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Nous quittons la maison et il est la terre entière,
  Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Plus le système solaire et la Voie Lactée et l’indéfini.

*

(Come chocolates, pequena;
(Mange les chocolats, petite ;
 
Come chocolates!
Mange les chocolats!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Sache qu’il
n’y a pas de la métaphysique dans le monde, mais des chocolats.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
 Sache que 
toutes les religions n’enseignent pas plus que la confiserie.
Come, pequena suja, come!
Viens, petite souillon,  et mange!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Ah ! si je pouvais manger
des chocolats avec la même vérité que toi !
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Mais je crois et, en enlevant le papier d’argent qui est une feuille d’étain,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Je dépose le tout au sol, comme j’ai fait de ma vie.)

**

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
Mais au moins il me reste l’amertume de ce que je ne serai jamais
A caligrafia rápida destes versos,
La calligraphie rapide de ces versets,
Pórtico partido para o Impossível.
Portique
parti vers l’impossible.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Mais au moins je me consacre un mépris sans larmes,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
Noble
au moins dans le geste éclatant que je lance
  A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
Le linge sale que je suis, dans le rôle,  dans le cours des choses,
E fico em casa sem camisa.
Et je reste à la maison le torse nu.

*

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
(Toi qui consoles,  qui n’existes pas et donc qui consoles,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou déesse grecque, conçue comme une statue qui serait vivante,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou patricienne romaine, incroyablement noble et néfaste,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou princesse des troubadours, très douce et colorée,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou marquise du XVIIIe siècle, décolletée et lointaine,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou célèbre courtisane du temps de nos pères,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Ou je ne sais quoi de moderne que je ne peux concevoir
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Tout cela, quel qu’il soit, tu l’es, et si tu peux m’inspirer ne te gênes pas !
Meu coração é um balde despejado.
Mon cœur est un seau renversé.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
Comme ceux qui invoquent les esprits invoquent les esprits, j’invoque
A mim mesmo e não encontro nada.
Pour moi-même et ne trouve rien.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Je viens à la fenêtre et je vois la rue avec une clarté absolue.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Je vois les magasins, je vois les trottoirs, je vois passer les voitures,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Je vois les êtres vêtus qui se croisent,
Vejo os cães que também existem,
Je vois les chiens qui existent également,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
Et tout cela me pèse comme une condamnation à l’exil,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Et tout cela m’est étranger, comme tout.)

*

Vivi, estudei, amei e até cri,
Je vécu, étudié, aimé et même cru,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Et aujourd’hui, il est pas un mendiant que j’envie simplement parce qu’il n’est pas moi
 Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
J’observe sur chacun les chiffons et les plaies et le mensonge,
  E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
Et je pense que, peut-être, n’as-tu jamais vécu, ni étudié, ni aimé, ni cru
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
(Car est possible de rendre la réalité de tout cela sans rien faire de tout cela);
 Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
Peut-être simplement existes-tu, comme un lézard à qui on a coupé la queue
 E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Avec cette queue du lézard qui court indépendamment du reste.

*

Fiz de mim o que não soube,
Je me suis fait avec ce que je savais pas faire.
 E o que podia fazer de mim não o fiz.
Et ce que j’aurais pu faire, ça je ne l’ai pas fait.
O dominó que vesti era errado.
Le costume que je portais n’était pas le bon.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
On m’a pris pour ce que je n’étais pas, je ne l’ai pas nié
et je me suis perdu.
Quando quis tirar a máscara,
Quand j’ai voulais enlever le masque,
Estava pegada à cara.
Il me collait au visage.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Lorsque j’ai pu le retirer, je me suis retrouvé devant le miroir,
Já tinha envelhecido.
J’avais vieilli.
 Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
J’étais ivre et je  ne savais pas reprendre le costume que je n’avais pas retiré.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Je jetai le masque et dormi dans le vestiaire
Como um cão tolerado pela gerência

Comme un chien toléré par la direction
Por ser inofensivo

Parce qu’inoffensif
 E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Et je vous écris cette histoire pour prouver combien je suis sublime.

*

Essência musical dos meus versos inúteis,
Essence musicale de mes versets inutiles,
 Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
Je souhaite me trouver comme quelque chose que j’ai réalisée,
 E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Et ne pas toujours rester en face du bureau de tabac d’en face,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Foulant aux pieds la conscience d’exister,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Comme un tapis sur lequel un ivrogne trébuche
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Ou un paillasson volé par des gitans et qui ne vaut rien.

*

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Mais le propriétaire du tabac est venu à la porte et se fixa à cette porte.
 Olho-o com o desconfôrto da cabeça mal voltada
Je le regarde avec effort par l’inconfort de cette tête vrillée
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Et par l’inconfort d’une âme mal-entendue.
 Ele morrerá e eu morrerei.
Il va mourir et je mourrai.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
Il quittera sa boutique, je vais laisser les vers.
  A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
A un moment, la tablette va mourir aussi, les vers ainsi.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
Après finira par mourir la rue elle-même où était la boutique,
E a língua em que foram escritos os versos.
Et la langue dans laquelle les vers ont été écrits.
  Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Mourra ensuite la planète tournoyante tout cela est arrivé.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Sur d’autres satellites d’autres systèmes quelque chose comme des gens
  Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Continueront à faire des choses comme des poèmes et vivrons dans  des choses comme des boutiques,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Toujours une chose face à l’autre,
 Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Toujours une chose aussi inutile que l’autre,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Toujours l’impossible aussi stupide que la réalité,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Toujours le mystère du fond aussi certain que le rêve du mystère de la surface. 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Toujours ceci ou toujours autre chose  ou ni une chose ni l’autre.

*

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
Mais un homme est entré dans le tabac (pour acheter du tabac?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Et la réalité plausible me frappe soudainement.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
Je me relève énergique, convaincu, humain,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Et je vais essayer d’écrire ces vers dans lesquels je dis le contraire.

*

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
Je brûle une cigarette en pensant à ma page d’écriture
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Et savoure la cigarette qui me libére toutes les pensées.
Sigo o fumo como uma rota própria,
Je suis la fumée comme un itinéraire personnel.
E gozo, num momento sensitivo e competente,
Et profite, dans un moment sensible et privilégié,
A libertação de todas as especulações
De la libération de toutes les spéculations
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Et la prise de conscience que la métaphysique est une conséquence d’un mal-être.

*

Depois deito-me para trás na cadeira
Ensuite, je me penche en arrière dans le fauteuil
E continuo fumando.
Et je continue à fumer.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
Bien que le Destin me le concède, je vais continuer à fumer.

*

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
(Si je me mariais avec la fille de ma blanchisseuse
Peut-être que serais-je heureux.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
Bon ! Je me lève de la chaise et je vais à la fenêtre.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
L’homme a quitté le bureau de tabac (en mettant la monnaie dans sa poche ?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
Oh, je le connais; C’est Esteves sans métaphysique.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
(Le propriétaire du tabac est venu à la porte.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Comme soumis à une volonté divine, Esteves se retourna et me vit.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Il m’a dit au revoir, je lui ai crié : « Salut l’Esteves ! », Et l’univers
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
S’est reconstruit en moi sans idéal ni espoir, et le propriétaire du tabac a souri.

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TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
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