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FERNANDO PESSOA CHRONIQUE DE LA VIE QUI PASSE (1915)- LE PROLETARIAT S’ORGANISE – O proletariado organiza-se

Chronique de la Vie qui passe
Poème & Prose de Fernando Pessoa





Traduction – Texte Bilingue
tradução – texto bilíngüe

Traduction Jacky Lavauzelle


LITTERATURE PORTUGAISE
POESIE PORTUGAISE

Literatura Português

FERNANDO PESSOA
1888-1935
Fernando Pesso Literatura Português Poesia e Prosa Poésie et Prose Artgitato

 





Prosa de Fernando Pessoa




Crónicas da Vida Que Passa
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Crónica da Vida Que Passa
CHRONIQUE DE LA VIE QUI PASSE

21 de abril 1915
21 avril 1915

 

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O proletariado organiza-se
Le Prolétariat s’organise

 




 

O proletariado organiza-se.
Le prolétariat s’organise.
Inaugurou-se há dias, em Lisboa, a Associação de Classe dos Monárquicos.
Il a inauguré il y a quelques jours, à Lisbonne, l’Association de Classe de Monarchistes.

Os operários manuelistas merecem-me a mesma simpatia e consideração que os outros sempre me mereceram;
Les travailleurs manuélistes méritent la même sympathie et la même considération que les autres si seulement ils les méritent ;
e seria, da minha parte, tão cruel como indelicado fazer referências menos bondosas a quem procura ganhar honradamente a vida e, achando cheias as profissões usuais, se aproveita da necessidade de uma nova profissão, e por isso, por vezes, a exerce incompetentemente.
et il serait, pour ma part, aussi cruel que désobligeant d’être moins aimable envers ceux qui cherchent à gagner honorablement leur vie et qui, ne trouvant rien dans des professions usuelles,  se retrouvent dans la nécessité d’embrasser une nouvelle profession, et à, parfois, l’exercer de façon incompétente.

Quando surgiu a indústria automobilista, foi preciso criar a classe dos  chauffeurs;  
Quand l’industrie automobiliste s’est créée, il était nécessaire de créer une classe des chauffeurs;
ninguém, a não ser um ou outro atropelado mais plebeu, se revoltaria decerto contra a imperícia inicial dos guiadores dos carros.
personne, à l’exception probable d’un accidenté plébéien, ne se serait certainement pas révolter contre les premières maladresses de nos conducteurs.
Estavam aprendendo o ofício — o que é natural — e ganhando a sua vida — o que é respeitável.
Ils apprenaient le métier – ce qui est naturel – et gagnaient leur vie – ce qui est respectable.
Depois ficaram sabendo da sua arte, e, embora a maioria continue guiando mal, o facto é que são  hauffeurs definitivamente.
Après avoir appris leur art, et, bien que la plupart continuent à conduire encore aujourd’hui aussi mal, le fait est qu’ils sont chauffeurs définitivement.

 

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 Fernando Pessoa et Costa Brochado
Café Martinho da Arcada
6 juin 1914

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Ora o critério de humana tolerância que se aplica aos  chauffeurs —   como a todas as outras classes operárias que o progresso vai tornando precisas, triste seria que o não quiséssemos aplicar aos artistas monárquicos, excluindo-os assim, abusivamente, da grande família proletária, à qual tão dignamente pertencem.
Or le critère de tolérance humaine qui s’applique aux chauffeurs – comme pour toutes les autres classes de travailleurs concernés par le progrès – il serait bien désolant de ne pas l’appliquer aux artistes monarchiques, cela les exclurait, à tort, de la grande famille prolétarienne, à laquelle ils appartiennent dignement.

A maior prova de falta de espírito humanitário seria notar-lhes os defeitos da obra, como se se tratasse de um operariado com tradições.
La plus grande preuve d’un manque d’esprit humanitaire serait de souligner les défauts de leur travail, comme s’il s’agissait d’une classe ouvrière avec des traditions.
Assim, o facto do Sr. Crispim, da  Nação  , nunca ter graça, não lhe deve ser levado a mal.
Ainsi, le fait que M. Crispin, de Nação, n’est jamais amusant, ne doit pas être pris en compte.
Ele não a tem naturalmente. 
Il est ainsi naturellement.
Também ninguém nasce  chauffeur   ou bailarino russo.
Aussi personne ne naît chauffeur ou danseur russe.
Quem sabe o que a aplicação e boa vontade podem conseguir?
Qui sait ce que l’application et la bonne volonté peuvent nous permettre d’atteindre ?
Quem nos diz que não teremos um dia a surpresa do Sr. Crispim nos aparecer com espírito?
Qui peut dire qu’il n’est pas possible de voir un jour M. Crispin avec de l’esprit ?

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O que acontece com a graça do Sr. Crispim acontece também, é claro, com o talento do Sr. José de Arruela e a lógica do Sr. Cunha e Costa.
Ce qui arrive à la grâce de M. Crispin arrive aussi, bien sûr, au talent chez M. José de Arruela et ou à la logique de M. Cunha e Costa.
E com respeito a esses outros artífices que se ocupam das partes mais técnicas da indústria monárquica, também o desalento me parece prematuro.
Et par rapport à ces autres artisans qui se retrouvent plus sur les parties techniques de l’industrie monarchiques, le découragement semble prématuré.
É o caso, por exemplo, do meu amigo João do Amaral (não o especializo se não para o saudar), de qual — um santo rapaz, e até inteligente — vê-se que, como os outros, não está ainda à vontade na tecnologia da classe.
Tel est le cas, par exemple, de mon ami João do Amaral (je l’évoque ce qui me permet de le saluer), – un saint homme, et même un homme intelligent – dont nous voyons assurément que, comme les autres, il n’est pas à l’aise encore avec la technologie de sa classe.
Porque a gente vê que aquilo do  El-Rei  e Sumo Pontífice   é ferramenta com que ainda não sabem lidar.
Car nous voyons qu’ils ne savent pas encore bien manipuler les outils comme Le Roi et comme le Souverain Pontife.
Fica-nos sempre a impressão de que há peças que saltam no rodar daqueles engenhos lógicos, que há laqueios, folgas e outras coisas feias nestas engrenagens da dialéctica integralista.
Cela donne l’impression qu’il y a des morceaux qui sautent dans le processus de ces engins logiques, comme des dysfonctionnements, un sorte de jeu et d’autres choses bien laides dans ces engrenages de la dialectique intégriste.




Dos outros defeitos que a classe ostenta — a falta de cultura, a precipitação nas conclusões, a frequente grosseria nos ataques — seria quase ignóbil falar, dado que tais têm sempre sido, em toda a parte, as infelicidades de origem das agremiações plebeias.
Des autres défauts de cette classe – le manque de culture, la précipitation dans ses conclusions, les grossièretés fréquentes dans les attaques- il serait presque honteux de parler, car ils ont toujours été, partout, les malheurs d’originels des associations plébéiennes.

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Crónica da Vida Que Passa
Chronique de la Vie qui Passe
Fernando Pessoa
1915