Archives par mot-clé : literatura português

Les Caricatures d’Almada Negreiros Fernando Pessoa Traduction et Texte portugais

Les Caricatures d’Almada Negreiros
(1913)

Les Caricatures d'Almada Negreiros AS CARICATURAS DE ALMADA NEGREIROS Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française
LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Almada Negreiros
(1893-1970)

AS CARICATURAS DE ALMADA NEGREIROS
Les Caricatures d’Almada Negreiros

 

A arte chamada satírica é aquela cujo intuito consiste traduzir um objecto, sem erro de tradução, para inferior a si-próprio. Baseia-se por isso em um dos três sentimentos donde essa intenção pode nascer — o ódio ou aversão, o desprezo, e o interesse fútil, e consciente de ser fútil, que é uma espécie de desprezo carinhoso. A revolta, o riso, o sorriso — eis as três manifestações que consoante o sentimento gerador, tenta produzir com respeito ao objecto que trata.
L’art appelé satirique traduit un objet, sans erreur de traduction, de manière inférieure à ce qu’il est en réalité. Il est donc basé sur l’un des trois sentiments peut naître cette intention  la haine ou le dégoût, le mépris et l’intérêt futile, et conscient d’être futile, qui est une sorte de mépris affectueux. La révolte, le rire, le sourire   sont les trois manifestations, selon le sentiment qui le génère,  qu’il tente de produire en respectant l’objet qu’il traite.

Toda a outra arte procura tornar o seu objecto superior a si-próprio, busca nele uma qualquer espécie de além-ele.
Tout autre art cherche à produire un objet supérieur à lui-même, il cherche une sorte d’au-delà de lui.

Desde que a intenção da arte deixe de ser o tornar o objecto superior a si-próprio, passa fatalmente a ser o torná-lo inferior a si-próprio, visto que a via média não existe, porque (pois que a arte é essencialmente interpretação) uma coisa é igual a si-própria nunca na arte, mas só na vida.
Puisque l’intention de l’art n’a plus pour objet de rendre l’œuvre au-dessus de l’objet, elle cherche inévitablement à le rabaisser, car il n’y a pas de milieu, puisque (comme que l’art est essentiellement interprétation ) une chose n’est égale à elle-même, jamais dans l’art, mais seulement dans la vie.

Basta considerar um objecto futilmente, como meramente interessante, para o inferiorizar, visto que cada Coisa ou Sensação, momento espacial ou psíquico do Mistério, ou, pelo menos, da Vida, basta que seja considerada sem uma consciência clara ou obscura de que é isso, para ser ipso facto traduzida para inferior a si-própria.
Il suffit de considérer un objet futilement, comme simplement intéressant, pour le rendre inférieur, puisque chaque Chose ou Sensation, moment spatial ou moment psychique du Mystère, ou pour le moins, de la Vie, sans en posséder une conscience claire ou obscure de ce qu’elle est, pour être ipso facto reproduite en moins bien que l’original.

Almada Negreiros 1917 1

Daí o existir, além do ódio (que produz a revolta) e o desprezo (que produz o riso), o interesse fútil (que produz o sorriso) como sentimento gerador de obra satírica, propriamente assim chamada.
Il existe donc, au-delà de la haine (qui produit la révolte) et le mépris (qui produit le rire), l’intérêt futile (qui produit le sourire), comme un sentiment générateur de l’œuvre satirique, proprement dite.

Daí o carácter basilarmente negativo da arte satírica.
D’où le caractère fondamentalement négatif de l’art satirique.

Acontece porém que toda a arte é criação; ora sendo toda a arte criação, e sendo toda a criação, por sua natureza, afirmação, resulta que a arte satírica, que é negativa, encerra em sua essência o paradoxo de que é grande na proporção em que sai para fora de ser satírica. Quanto mais satírica menos satírica. Aí estão o «Dom Quixote» e «A Tale of a Tub» a pedirem que os citemos como exemplos.
Il se trouve cependant que tout art est création ; or si tout art créé, et si toute la création est, par sa nature, affirmation, il résulte que l’art satirique, qui est négatif, contient dans son essence le paradoxe qu’il est d’autant plus grand en proportion qu’il sort de la satire. Plus il est satirique, moins il est satirique. Il y a le « Don Quichotte » et « A Tale of a Tubque nous pouvons citer à titre d’exemples.

Assinatura_de_Almada_Negreiros Signature d'Almada Negreiros

Não se julgue porém que isto — mera constatação — leva escondido o puxar para desprezível a arte de satirizar. Nessa arte, como na outra, pode haver, e em cada um dos seus três géneros, brilhantismo, talento e génio. Pode haver mesmo um artista genial em nos dar o interesse fútil das coisas; basta que no-lo dê com a plena dolorosa consciência dessa futilidade. E isso é porque (voltemos ao mesmo paradoxo) já essa dor da consciência do fútil nos leva para além da sátira.
Ne croyez pas cependant que ceci juste une constatation rende méprisable l’art de la satire. Dans cet art, comme dans les autres, il peut y avoir, et dans chacun de ses trois genres, de l’éclat, du talent et du génie. Nous pouvons trouver un artiste de génie qui nous donnera l’intérêt pour des choses futiles ; il faut juste qu’il le donne avec la pleine conscience de cette futilité douloureuse. Tout cela, parce que (revenons à ce même paradoxe) cette prise de conscience du futile nous emmène au-delà de la satire.

Porque o génio satírico é aquele que, quer faça sátira pelo ódio, quer pelo desprezo, quer pelo interesse fútil, nos dá o além odioso, o além ridículo, o além fútil. O talento, em qualquer dos três géneros, será aquele que cegantemente, multiformalmente, nos der o fútil como fútil, o ridículo como ridículo o odioso como odioso. — O meramente inteligente ou brilhante será aquele que, não sem individualidade, mas sem vincada forma pessoal e acentuado polimorfismo, nos der o que ao seu género convenha.
Parce que le génie satirique est celui qui, soit est inspiré de la haine, soit du mépris, soit par l’intérêt futile, nous donne ce qui est au-delà du détestable, au-delà du ridicule, au-delà du futile. Le talent de l’un de ces trois genres, nous montre de manière aveuglante, multiforme, le futile comme futile, le ridicule aussi ridicule, et l’odieux comme odieux. Avec la seule intelligence ou le seul brio , celui-là, non sans personnalité, mais sans une forme personnelle et un polymorphisme accentué, nous donnera ce qui convient à son genre.

Se, de posse destes claros elementos para a crítica, nos aproximarmos da obra de Almada Negreiros, agora exposta em Lisboa, não teremos dificuldade para pragas em lhe encontrar classificação.
Si, en possession de ces éléments clairs du point de vue de la critique, nous nous approchons de l’œuvre de Almada Negreiros, maintenant exposée à Lisbonne, nous aurons aucun mal à lui trouver une classification.

LE SOURIRE DE SON ÂME ATTENTIVE

Almada Negreiros pertence aos satiristas que se aplicam a dar a futilidade das coisas. A sua arte é suavemente para o sorriso. Não tem nem ódios nem desprezos, pelo menos artisticamente; por isso a sua arte não nos deixa na alma rasto de revolta ou eco de gargalhada. Ele observa interessadamente, mas não traz, pelo menos por enquanto, sentimentos profundos para a sua observação. Vê, acha curioso, e fixa em traço e cor o sorriso da sua alma atenta.
Almada Negreiros appartient à ces satiristes qui mettent en relief la futilité des choses. Son art fait doucement sourire. Vous n’avez pas de haine ou du mépris, du moins artistiquement ; pour cela, son art ne nous laisse sur notre âme ni trace de révolte ni l’écho d’un rire. Il note avec intérêt, mais pas trop, du moins pour le moment, des sentiments profonds pour son observation. Voir, trouver curieux, et fixer dans la trace et dans la couleur le sourire de son âme attentive.

Isto, porém, é uma classificação de espécie, não de valor. O que nos importa saber é o valor do artista dentro do género a que pertence.
Mais cela est une sorte de classement d’espèce, et non de valeur. Ce qui compte pour nous , c’est de connaître la valeur de l’artiste dans le genre qui est le sien.

Que Almada Negreiros não é um génio — manifesta-se em não se manifestar. Nada de dolorosamente consciente de quanto o fútil simboliza e resume das coisas da Vida. Um ou outro assunto é tratado mais a sério; mas nem esse sério leva em si pequena porção que seja de individualidade e especialidade, nem, mesmo, o sério é o doloroso.
Qu’Almada Negreiros n’est pas un génie cela se manifeste en ne se manifestant pas. Rien de douloureusement conscient de tout ce futile qui symbolise et résume les choses de la Vie. Un sujet est traité plus sérieusement; mais il ne porte en lui même pas une petite portion d’individualité et de particularité, ni, même,  n’a ce ce grave qui est douloureux.

Mas que este artista tem brilhantismo e inteligência, muito e muita — eis o que está fora de se poder querer negar. Mas terá talento? O ponto para quem quer discutir é este.
Mais que cet artiste ait de l’éclat et l’intelligence, en grande quantité– nous ne pouvons le nier. Mais a-t-il du talent ? Voici un point que nous allons discuter.

Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe inteligência apenas.
Je pense qu’il a du talent. Il suffit juste de remarquer que le sourire de son crayon se lie au polymorphisme de son art et nous oriente vers quelque chose qui va au-delà de l’intelligence.

É interessante de vários modos, interessado de várias maneiras na futilidade da Vida, apanhando-lhe ora este, ora aquele, momento de espuma, sem consciência, infelizmente, de que essa espuma é a orla de um mar antigo, vasto e misterioso.
Il est intéressant, à bien des égards, intéressé à bien des égards par la futilité de la Vie, prenant ces moments d’écume inconsciemment, malheureusement, qui provient d’une ancienne, vaste et mystérieuse mer.

E o seu polimorfismo — a que atribuí-lo, cingindo-nos criticamente só a ele? Será poliaptidão do artista, incerteza em encontrar-se, ou uma assemelhável imitação ou adaptação a vários géneros? Creio na Síntese, sempre, e aqui ela vem em meu auxílio. Porque me parece que de todos estes três elementos se forma o multiforrnismo do artista. Há qualquer coisa de procurar; há, infelizmente, também qualquer coisa de achar (nos outros); — mas há também, para quem sabe ver, nitidamente personalidade e originalidade através de essas influenciações e tentativas.
Et son polymorphisme à quoi lui attribuer, si nous revenons sur notre critique Est-ce la polyvalence de l’artiste, l’incertitude à se trouver, ou  faculté d’imitation ou d’adaptation à différents genres ? Je crois dans la Synthèse, toujours, et ,ici, elle vient à mon secours. Parce qu’il me semble que tous ces trois éléments forment le polymorphisme de l’artiste. Il y a quelque chose de l’ordre de la recherche ; il y a, malheureusement, aussi quelque chose de  l’ordre du trouver(chez les autres) ; Mais il y a aussi, pour qui sait voir, une personnalité et une originalité à travers ces influences et ces tentatives.

********************
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
********************

O QUE É A METAFÍSICA? Fernando Pessoa Traduction Française

O que é a Metafisica ?
LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

O QUE É A METAFÍSICA Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française


 O QUE É A METAFÍSICA?
Qu’est-ce que la métaphysique ?

1924

 

Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio «Athena», a filosofia — isto é, a metafísica — não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece‑me que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não‑ciência. Pensa Fernando Pessoa, naturalmente, que como a metafísica não chega, nem aparentemente pode chegar, a uma conclusão verificável, não é uma ciência. Esquece que o que define uma actividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência — conhecer factos, e não ao da arte — substituir factos. As ciências realizam esse fim de conhecer factos — realizam‑no umas mais, outras menos — porque os factos que pretendem conhecer são definidos. Mas, antes de conhecidos, todos os factos são in‑definidos; e toda a ciência, em relação a eles, está no estado da metafísica. Por isso chamarei à metafísica, não uma arte, mas uma ciência virtual, pois que tende para conhecer e ainda não conhece. Se ficará sempre virtual, se o não ficará; se há outro «plano» ou vida em que deixe de ser virtual — são coisas que nem eu nem Fernando Pessoa sabemos, porque verdadeiramente não sabemos nada.
De l’avis de Fernando Pessoa, exprimé dans l’essai «Athena», la philosophie – autrement-dit la métaphysique – n’est pas une science, mais un art. Je ne le pense pas. Il semble que Fernando Pessoa confonde ce que l’art est avec ce que la science n’est pas. Maintenant, ce qui n’est pas de la science, n’est pas forcément de l’art : c’est tout simplement de la non-science. Fernando Pessoa pense, bien sûr, que la métaphysique ne pouvant apparemment se rendre à une conclusion vérifiable, ne peut donc pas être une science. Il en oublie que ce qui définit une activité : c’est sa fin ; et la fin de la métaphysique est identique à la fin de la science – la connaissance des faits, et non à fin de l’art – qui remplace les faits. Les sciences cherchent à connaître les faits – plus ou moins- parce que les faits qu’ils ont l’intention de rencontrer sont définis. Mais avant d’être connus, tous les faits sont in-définis ; et toute la science, en relation à eux,  est dans le même état que la métaphysique. Je dis donc : la métaphysique, n’est pas un art, mais une science virtuelle, car elle tend à connaître mais ne sait pas encore. Sera t-elle toujours virtuelle ? Y a-t-il un autre «plan» ou une autre vie sans qu’elle cesse d’être virtuelle ? – ce sont des choses que ni moi ni Fernando Pessoa ne savons , parce que vraiment nous ne savons rien !

Repare Fernando Pessoa que a sociologia é uma ciência tão virtual como a metafísica. A que conclusão, escassa que seja, se chegou já em sociologia? Positivamente, a nenhuma. Um congresso de sociologia, ocupando‑se de ao menos definir essa ciência, não o conseguiu. A política moderna é tão complicadamente confusa porque o espírito moderno obriga‑nos (talvez sem razão) a buscar uma ciência para tudo, e, como aqui não temos uma ciência mas só a preocupação de a ter, cada um toma por absoluta a sociologia relativa, isto é, nula, que inventou ou que, mais ou menos estropiadamente, assimilou de outro que também do assunto não sabia nada. Compare Fernando Pessoa as discussões dos escolásticos com, sobretudo, as dos socialistas, comunistas e anarquistas modernos. É o mesmo especulativismo de manicómio, ressalvando que os escolásticos eram subtis, disciplinados no raciocínio e inofensivos, e os modernos «avançados» (como a si próprios se chamam, como se houvesse «avanço» onde não há ciência) são estúpidos, confusos e, dada a pseudo‑semicultura da época, incómodos. Discutir quantos anjos podem convenientemente fixar‑se na ponta de uma agulha, pode ser improfícuo — e é com certeza mais engraçado — que discutir qual será ou deve ser o regime humanitário (e porque não anti‑humanitário?) e equitativo (e porque não mais injusto e desigual do que o presente?) em que viverá a humanidade futura (e que sabemos nós, que ignoramos toda e qualquer lei sociológica, que desconhecemos portanto, mesmo sob a acção delas, quais são as forças naturais que actualmente nos regem e arrastam e para onde, o que será a humanidade futura, o que quererá — pois pode não querer para si o que qualquer de nós quer para ela —, ou mesmo se haverá humanidade futura, ou um cataclismo destruidor da terra, e da nossa sociologia ainda incompleta, e dos humanitarismos de bizantinos que não sabem ler?).
Je fais remarquer à Fernando Pessoa que la sociologie est une science virtuelle comme la métaphysique. Quelle conclusion, si petite soit-elle, a déjà été atteinte en sociologie ? Positivement : pas une ! Un congrès de la sociologie, qui prenait grand soin de définir au moins cette science, n’y est absolument pas parvenu . La politique moderne est  confuse, car l’esprit moderne nous oblige (peut-être à tort) à trouver une science pour tout, et que nous ne disposons pas, en fait, ici, d’une science ; nous avons seulement le souci d’en avoir une ; nous prenons la sociologie relative comme un absolu, c’est à dire nulle,  inventée et transformée par d’autres qui ne connaissaient également rien de la question. Que Fernando Pessoa compare les discussions des scolastiques, en particulier aux discussions des socialistes, des communistes et des anarchistes modernes : les mêmes spéculations alambiquées ; en soulignant toutefois que les scolastiques étaient, eux, subtils, avec un raisonnement discipliné et inoffensif, alors que les «progressistes» modernes (comme ils se nomment, comme si nous avions du «progrès» là où il n’y a pas de science) sont stupides, confus et compte tenu de la pseudo-semi-culture du temps, sans tracas. Nous pouvons longtemps discutez combien d’anges peuvent être commodément fixés à la pointe d’une aiguille : c’est peut être inutile – mais au moins c’est plus drôle  – que de discuter de ce qui sera ou ce que devrait être l’humanitarisme et l’équité  (et pourquoi pas anti-humanitaire?) (et pourquoi pas plus injuste et inégal que celui présent ?) dans lequel l’humanité vivra dans l’avenir (et nous savons que nous ignorons toute loi sociologique ; nous ne savons même pas, même sous l’action d’entre eux, ce que sont les forces de la nature qui nous gouvernent actuellement et où sera la future humanité,  ou même s’il y aura une humanité future ou un cataclysme destructeur de la terre et destructeur de notre sociologie encore incomplète et de ces humanitarismes byzantins qui ne savent même pas lire ?).

O QUE É A METAFÍSICA Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française 2
Repare ainda Fernando Pessoa no facto — que aliás cita em outra conexão — de que a ciência tende para ser matemática à medida que se aperfeiçoa para reduzir tudo a fórmulas «abstractas», precisas, onde é máxima a libertação das «equações pessoais», isto é, dos erros de observação e coordenação produzidos pela falibilidade dos sentidos e do entendimento do observador ( 1). Ora «fórmulas abstractas» é justamente o que a metafísica procura. E a matemática, nos seus níveis «superiores», confina com a metafísica, ou, pelo menos, com ideias metafísicas. Tudo isto não quer dizer, é certo, que a metafísica venha a ser mais que uma ciência virtual, ou que não venha a ser mais. Quer dizer apenas que ela é efectivamente, não uma arte, mas uma ciência virtual.
Je dis également à Fernando Pessoa qu’il mentionne d’ailleurs, dans un autre contexte que la science tend à être mathématique quand elle se perfectionne en réduisant tout à des formules « abstraites », précises, où la libération maximum des « équations personnelles » s’opèrent, que ce sont les erreurs d’observation et de coordination produites par la faillibilité des sens et la compréhension de l’observateur. Maintenant ces «formules abstraites» sont précisément celles  que recherche la métaphysique. Et le calcul à des niveaux «les plus élevés», bute contre la métaphysique, ou au moins sur des idées métaphysiques. Tout cela ne signifie pas, bien sûr, que la métaphysique serait plus qu’une science virtuelle, ou ne serait pas plus. Je veux dire seulement qu’elle n’est en fait pas un art, mais bien une science virtuelle.
Pasmarão talvez destas considerações os que leram o meu Ultimatum, no «Portugal Futurista» (1917). Nesse Ultimatum lê‑se sobre a filosofia uma opinião que parece, salvo que a precedeu, exactamente a mesma que a de Fernando Pessoa. Não é bem assim. A conclusão prática pode ser realmente idêntica, mas a conclusão teórica, que é a prática para uma teoria, é diferente.
Peut-être seront étonnés par ces considérations ceux qui ont lu mon Ultimatum, dans le « Portugal Futur « (1917). Dans cet Ultimatum on peut lire sur la philosophie une opinion qui semble, à l’exception qu’elle l’a précédée, exactement la même que celle de Fernando Pessoa. Pas tout à fait. La conclusion pratique peut paraître  effectivement identique, mais la conclusion théorique, qui est la pratique de la théorie, en est toute autre.

A minha teoria, em resumo, era que: 1.° — se deve substituir a filosofia por filosofias, isto é, mudar de metafísica como de camisa, substituindo à metafísica procura da verdade, a metafísica procura da emoção e do interesse; e que 2.º — se deve substituir a metafísica pela ciência.
Ma théorie, en bref, est que:
primo : vous devez remplacer la philosophie par les philosophies, ce qui revient à changer de métaphysique comme chemise, en remplacent la recherche métaphysique de la vérité par la métaphysique comme recherche de l’émotion et de l’intérêt ;
et secundo : la métaphysique devrait être remplacée par la science.

É fácil de ver como esta teoria, tendo na prática quase os mesmos resultados que o pensamento de Fernando Pessoa, é diferente dele. Não rejeito a metafísica, rejeito as ciências virtuais todas, isto é, todas as ciências que não se aproximaram ainda do estado, vá, «matemático»; mas, para não desaproveitar essas ciências virtuais, que, porque existem, representam uma necessidade humana, faço artes delas, ou antes, proponho que se faça artes delas — da metafísica, metafísicas várias, buscando arranjar sistemas do universo coerentes e engraçados, mas sem lhes ligar intenção alguma de verdade, exactamente como em arte se descreve e expõe uma emoção interessante, sem se considerar se corresponde ou não a uma verdade objectiva de qualquer espécie.
Il est facile de voir combien cette théorie, alors qu’en pratique nous obtenons à peu près les mêmes résultats que la pensée de Fernando Pessoa, est différente de la sienne. Je ne rejette pas la métaphysique, mais je rejette toutes sciences virtuelles, toutes les sciences qui ne se rapprochent pas du stade, que nous appellerons, «mathématique» ; mais pour éviter de perdre ces sciences dites virtuelles, qui, parce qu’elles existent, représentent un besoin humain, j’en fait des arts, ou plutôt, je vous propose qu’on en fasse des arts de la métaphysique, nous aurons diverses métaphysiques, essayant d’organiser des systèmes d’univers cohérents et drôles, mais sans avoir la moindre intention de vérité, exactement comme ce qui se décrit dans l’art et qui présente une émotion intéressante, sans tenir compte si cela correspond ou non à une vérité objective d’aucune sorte.

É por esta mesma razão que substituo por artes as ciências virtuais no campo subjectivo, para não desamparar o desejo ou ambição humana que as faz existir, e exige, como todos os desejos, uma satisfação, embora ilusória, que substituo as ciências virtuais pelas ciências reais no campo objectivo.
C’est pour cette même raison que je substitue les arts par les sciences virtuelles dans le domaine subjectif, afin de ne pas abandonner le désir ou l’ambition humaine qui est à l’origine, et qui nécessite, comme chaque désir, la satisfaction, certes illusoire, que  je substitue les sciences virtuelles par les sciences réelles dans le champ objectif.

Ponhamos ainda mais a claro a discordância entre mim e Fernando Pessoa. Para ele a metafísica é essencialmente arte, e a sociologia, de que não fala, é naturalmente ciência. Para mim são, ambas e igualmente, essencialmente ciências, não o sendo porém ainda, nem talvez nunca, mas por uma razão extrínseca e não intrínseca. Proponho pois que se substituam por artes enquanto não são efectivamente ciências, o que pode ser que seja sempre, dando‑se então na prática, entre a minha teoria e a de Fernando Pessoa, aquela coincidência de efeitos que não é raro entre teorias não só diversas, mas absolutamente opostas.
Un mot encore sur ce désaccord manifeste que j’ai avec Fernando Pessoa. Pour lui, la métaphysique est essentiellement un art, et la sociologie, dont il ne parle pas, est naturellement la science. Pour moi, elles sont toutes les deux également et essentiellement des sciences, mais n’en sont pas encore, ou n’en seront peut-être jamais, mais pour une raison extrinsèque et non pour une raison intrinsèque. Je propose donc que l’on substitue ces deux-là par des arts, tant qu’elles ne sont des sciences, peut-être pour toujours. Ainsi entre ma théorie et celle de Fernando Pessoa aurons nous une coïncidence d’effets ; et ceci n’est pas rares dans les théories non seulement différentes, mais aussi celles diamétralement opposées.

Esclareço ainda mais … A metafísica pode ser uma actividade científica, mas também pode ser uma actividade artística. Como actividade científica, virtual que seja, procura conhecer; como actividade artística, procura sentir. O campo da metafísica é o abstracto e o absoluto. Ora o abstracto e o absoluto podem ser sentidos, e não só pensados, pela simples razão de que tudo pode ser, e é, sentido. O abstracto pode ser considerado, ou sentido, como não‑concreto, ou como directamente abstracto, isto é, relativamente ou absolutamente. A emonão do abstracto como não‑concreto — isto é, indefinido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento religioso, incluindo neste sentimento tanto a religiosidade do Além, como a religiosidade laica de uma humanidade futura, porque, desde que se forme uma visão de uma humanidade definitiva, ou de um ideal político definitivo, isto é, absoluto, sente‑se não concretamente, porque se sente em relacão à realidade concreta, mas em oposição ao «fluxo e refluxo eterno», que é a base dela. A emocão do abstracto como abstracto — isto é, definido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento metafísico. O sentimento metafísico e o religioso são directamente opostos, o que se vê claramente na infecundidade metafísica (a falta de grandes originalidades metafísicas) em épocas como a nossa, em que a especulação social utópica é o fenómeno marcante, e não haveria metafísica alguma se não houvesse deficiência da outra parte do espírito religioso, e aquela liberdade de pensamento que estimula toda a espécie de especulação; ou como a Idade Média, perdida na adaptação teológica de metafísicas gregas, e em cuja noite caliginosa só de vez em quando brilha metafisicamente o astro breve de uma heresia.
Précisons cela un peu plus… La métaphysique peut être une activité scientifique, mais peut également être une activité artistique. Comme science, pour virtuelle qu’elle puisse être, elle cherche à connaître ; comme activité artistique, elle cherche la sensation. Le champ de la métaphysique est l’abstrait et l’absolu. L‘abstrait absolu peut être ressenti, non seulement pensé, pour la simple raison que tout peut être, et est, de sens. L’abstrait peut être considéré, ou senti, comme non concret, ou directement comme abstrait, un abstrait relatif ou absolu. L’émotion de l’abstrait, comme négation du concret- ce qui est, non  indéfini – est la base, ou même l’essence du sentiment religieux, qui inclut ce sentiment à la fois de la religiosité de l’Ailleurs, comme la religion laïque de l’humanité future, pour aussi longtemps que se forme une vision d’une humanité définitive, ou d’un idéal politique définitif, qui est, absolu, ne se sent pas concrètement parce que nous nous sentons par rapport à la réalité concrète, mais par opposition au « flux et au reflux éternel », qui en est la base. L’émotion de l’abstrait comme abstrait – qui est, défini – est la base, ou même l’essence du sentiment métaphysique. Les sentiments métaphysique et religieux sont juste à l’opposé l’un de l’autre ; ce qui est clairement visible dans l’infertilité  métaphysique (le manque d’une grande originalité métaphysique) à une époque comme la nôtre, où la spéculation sociale utopique est le phénomène marquant ; il n’y aurait aucune sorte de métaphysique s’il n’y avait de carence d’une autre partie de l’esprit religieux, et de cette liberté de pensée qui stimule toutes sortes de spéculations ; ou comme au Moyen Age, perdu dans l’adaptation théologique de la métaphysique grecque, et dont la nuit noire ne brille parfois métaphysiquement que par les lumières de l’hérésie.

O sentimento religioso é inteiramente irracionalizável, nem pode haver teologia, ou sociologia utópica, senão por engano ou doença. O sentimento metafísico é racionalizável, como todo o sentimento de uma coisa definida, que basta tornar‑se inteiramente definida para se tornar matéria racional, ou científica. Proponho eu, simplesmente, que a matéria da metafísica, enquanto não está inteiramente definida, e portanto em estado de se pensar, e a metafísica se tornar ciência, seja ao menos sentida, e a metafísica seja arte; visto que tudo, bom ou mau, verdadeiro ou falso, tem afinal, porque existe, um direito vital a existir.
Le sentiment religieux est entièrement irrationalisable ; il ne peut y avoir de théologie, de sociologie utopique, sauf par erreur ou par maladie. Le sentiment métaphysique est rationalisable, comme tous les sentiments d’une chose certaine, qui vient de devenir entièrement une matière rationnelle ou scientifique. Je propose simplement que la matière de la métaphysique, tant qu’elle n’est pas entièrement définie, et donc dans un état de se penser, la métaphysique devenant une science, soit au moins sentie, et que la métaphysique soit de l’art ; puisque tout, bon ou mauvais, vrai ou faux, a, après tout, a le droit vital d’exister.

A minha teoria estética e social no Ultimatum resume‑se nisto: na irracionalização das actividades que não são (pelo menos ainda) racionalizáveis. Como a metafísica é uma ciência virtual, e a sociologia é outra, proponho a irracionalização de ambas — isto é, a metafísica tornada arte, o que a irracionaliza porque Ihe tira sua finalidade própria; e a sociologia tornada só a política, o que a irracionaliza porque a torna prática quando ela é teórica. Não proponho a substituição da metafísica pela religião e da sociologia pelo utopismo social, porque isso seria, não irracionalizar, mas sub‑racionalizar essas actividades, dando‑lhes, não uma finalidade diversa, mas um grau inferior da sua própria finalidade.
Mon esthétique et ma théorie sociale dans l’Ultimatum se résument à ceci : l’irrationalisation des activités qui ne sont pas (encore) rationalisables. Comme la métaphysique est une science virtuelle, et la sociologie en est une autre, je propose l’irrationalisation des deux – c’est à dire que la métaphysique se transforme en art, qui irrationalise parce qu’elle perd son propre but ; et la sociologie ne fait plus que de la politique, ce qui l’irrationalise parce qu’elle devient pratique quand elle est théorique. Je ne propose pas le substitution de la métaphysique par la religion ni la sociologie par l’utopisme social, car il ne serait pas irrationaliser, mais sous-rationaliser ces activités, leur donnant, non un but, mais un degré inférieur à leur propre finalité.

É isto, em resumo, o que defendi no meu Ultimatum. E as teorias, política e estética, inteiramente originais e novas, que proponho nessa proclamação, são, por uma razão lógica, inteiramente irracionais, exactamente como a vida.
Voici, en bref, ce que je soutenais dans mon Ultimatum. Et les théories, politiques et esthétiques, entièrement originales et nouvelles, que je vous propose dans cette proclamation sont, pour une raison logique, entièrement irrationnelles, tout comme la vie.

***
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
**

AVISO POR CAUSA DA MORAL Fernando Pessoa Traduction Française Avertissement à cause de la morale

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935
 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

AVISO POR CAUSA DA MORAL Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française


AVISO POR CAUSA DA MORAL
AVERTISSEMENT A CAUSE DE LA MORALE

1929

 

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…
Lorsque le public a appris que les étudiants de Lisbonne, en disant des obscénités aux dames qui passaient, s’étaient engagés afin de moraliser tout le monde, ce public a eu une exclamation d’impatience. Oui exactement l’exclamation qui vient de vous échapper, à vous lecteur

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.
Être jeune c’est ne pas être vieux. Être vieux, c’est avoir des opinions. Être jeune, c’est ne jamais s’arrêter aux opinions. Être jeune, c’est de laisser les autres aller seul au diable avec les points de vue qu’ils ont, bons ou mauvais bons ou mauvais, on ne sait jamais lequel nous dirige vers le diable.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.
Les garçons de la vie des écoles s’en prennent aux écrivains qui ne passent pas pour les mêmes raisons qu’ils s’en prennent aux dames qui passent. S’ils ne connaissent pas la raison avant de la leur dire, aussi ne la sauront-il pas plus tard. S’ils pouvaient savoir, ils n’enquiquineraient ni les dames ni les écrivains.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.
Quelle misère pour nous d’avoir à supporter cela! Enfants : étudiez, amusez-vous et taisez-vous ! Etudiez les sciences, si vous étudiez les sciences ; étudiez les arts si vous étudiez les arts; étudiez les lettres si vous étudiez les lettres. Amusez-vous avec les femmessi vous les aimez ; amusez-vous autrement, si vous préférez autrement. Tout est juste, parce que cela se joue avec le corps de celui qui s’amuse.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.
Mais pour le reste, taisez-vous. Taisez-vous le plus discrètement possible.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.
Parce qu’il n’y a que deux façons d’être droit. L’une est de se taire, ce qui convient aux jeunes. L’autre est de se contredire, mais seulement réservée pour quelqu’un de plus âgé.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.
Tout le reste est une grande nuisance pour ceux qui est présent par hasard. Et la société dans laquelle nous sommes nés est le lieu du hasard par excellence.

Europa, 1923
Europe, 1923

Opiário (Fumerie) Fernando Pessoa Traduction Française

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Opiário Fumerie Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

 

Opiário
FUMERIE

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**
Mars 1914

***

Opiário

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
C’était bien avant l’opium que mon âme était malade.
Sentir a vida convalesce e estióla
Sentir la vie convalescent et faible
E eu vou buscar ao ópio que consóla
Et je vais chercher la consolation dans l’opium
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Un Orient à l’orient de l’Orient.

*

Esta vida de bórdo há-de matar-me.
Cette vie de bord va me tuer.
São dias só de febre na cabeça
Ce ne sont que des jours enfiévrés dans la tête
E, por mais que procure até que adoeça,
Et, je recherche jusqu’à m’en rendre malade,
já não encontro a móla pra adaptar-me. 
Je n’ai pas trouvé ce quelque chose pour m’adapter.

*

Em paradoxo e incompetência astral
Dans le paradoxe et l’incompétence astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Je vis le plissement d’or de ma vie,
Onda onde o pundonor é uma descida
l’onde de l’orgueil est une descente
E os próprios gozos gânglios do meu mal.
Et les noeuds de mon mal sont une joie.

*

É por um mecanismo de desastres,
Il existe un mécanisme de catastrophes,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Un engrenage de volants faussés,
Que passo entre visões de cadafalsos
Je passe entre les visions d’échafauds
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.
Un jardin avec des fleurs dans l’air sans tiges.

*

Vou cambaleando através do lavôr
Je vais en zigzaguant au travers
Duma vida-interior de renda e laca.
D’une vie-intérieure de de vie et de laque.
Tenho a impressão de ter em casa a fáca
J’ai l’impression d’avoir à la maison le couteau
 Com que foi degolado o Precursôr.
Avec lequel le Précurseur a été décapité.

*

Ando expiando um crime numa mala,
J’expédie un crime dans une valise,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Qu’un grand-père a commis avec raffinement.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
J’ai les nerfs sur la potence, en paquets de vingt,
  E caí no ópio como numa vala.
Et je suis tombé dans l’opium comme on tombe dans un fossé.

*

Ao toque adormecido da morfina
Dans les bras endormi de la morphine
Perco-me em transparências latejantes
Je me perds dans de transparentes secousses
  E numa noite cheia de brilhantes,
Et une nuit pleine d’éclats,
Ergue-se a lua como a minha Sina.
Se lève la lune comme se lève mon destin.

*

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Moi, qui fus toujours un mauvais élève, maintenant
Não faço mais que ver o navio ir
Je ne fais plus que regarder le navire aller
Pelo canal de Suez a conduzir
Par le  Canal de Suez qui conduit
A minha vida, cânfora na aurora.
Ma vie, camphre dans l’aurore.

*

Perdi os dias que já aproveitara
Je perdis les jours que j’avais amassés
 Trabalhei para ter só o cansaço
A travailler pour avoir seulement de la fatigue
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Qui est maintenant en moi une sorte de bras
Que ao meu pescôço me sufoca e ampara.
A mon cou qui m’étouffe et me soutient.

*

E fui criança como toda a gente.
Et je fus un enfant comme tout le monde.
Nasci numa província portuguêsa
Je suis né dans une province portugaise
 E tenho conhecido gente inglêsa
Et les anglais que je connais
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
disent que je sais parfaitement l’anglais.

*

 Gostava de ter poemas e novelas
Je voudrais avoir des poèmes et des romans
Publicados por Plon e no Mercure,
Publiés chez Plon et au Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Mais il est impossible que cette vie dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!
Si dans ce voyage je ne trouvais pas de tempête !

*

A vida a bordo é uma coisa triste,
La vie à bord est une chose triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Bien que nous nous amusions parfois.
Falo com alemães, suecos e ingleses
Je parle l’allemand, le suédois et l’anglais
  E a minha mágoa de viver persiste.
Et ma douleur de vivre persiste.

*

Eu acho que não vale a pena ter
Je ne crois pas utile d’avoir
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A voyager à l’Est et voir l’Inde et la Chine.
A terra é semelhante e pequenina
La terre est semblable et petite
E há só uma maneira de viver.
Et il n’y a qu’une seule façon de vivre.

*

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Donc, je prends de l’opium. C’est un remède
Sou um convalescente do Momento.
Je suis un convalescent du Moment.
Moro no rés-do-chão do pensamento
Je vis au rez-de-chaussée de la pensée
E ver passar a Vida faz-me tédio.
Et voir passer la vie m’ennuie.

*

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Je fume. Je fatigue. Ah ! une terre où, enfin,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Très à l’est, je ne suis pas tout à fait à l’ouest !
Pra que fui visitar a Índia que há
Pourquoi suis-je allé visiter l’Inde
Se não há Índia senão a alma em mim?
S’il n’y a pas d’Inde sinon dans l’âme en moi ?

*

Sou desgraçado por meu morgadio.
Je suis déshonoré par mon antériorité de naissance.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Les tsiganes ont volé ma Chance.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Peut-être même ne trouverai-je pas au pied de la mort
Um lugar que me abrigue do meu frio.
Un endroit qui m’abritera de mon froid.

*

 Eu fingi que estudei engenharia.
Je prétendais étudier le génie.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Je vécu en Ecosse. Je suis allé en Irlande.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Mon cœur est comme une marche de grand-mère
 Pedindo esmola ás portas da Alegria.
Mendiant aux portes de la Joie.

*

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Ne viens pas près de Port-Saïd, navire de fer !
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Tourne à droite,  je ne sais pas par où.
Passo os dias no smokink-room com o conde –
Je passe les jours dans le fumoir avec le comte
Um escroc francês, conde de fim de enterro.
Un escroc français, un comte de fin d’enterrement.

*

Volto à Europa descontente, e em sortes
Je rentre en Europe malheureux, et prêt
  De vir a ser um poeta sonambólico.
A devenir un poète somnambule.
  Eu sou monárquico mas não católico
Je ne suis pas catholique, mais monarchique
E gostava de ser as coisas fortes.
Et je souhaite être comme les choses fortes.

*

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Je souhaite avoir des croyances et de l’argent,
Ser vária gente insípida que vi.
Être les insipides personnes que j’ai vues.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Aujourd’hui, après tout, je ne suis ici,
Num navio qualquer um passageiro.
Sur un navire quelconque qu’un passager.

*

Não tenho personalidade alguma.
Je n’ai aucune personnalité qui soit.
É mais notado que eu esse criado
Il est plus remarquable que moi ce garçon
De bordo que tem um belo modo alçado
De bord  qui a une belle manière élégante
  De laird escocês há dias em jejum.
De lord écossais pendant des jours à jeun.

*

Não posso estar em parte alguma.
Je ne peux pas être partout.
A minha Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
Ma patrie est là où je ne suis pas. Je suis malade et faible.
O comissário de bordo é velhaco.
Le commissaire de bord est un voyou.
Viu-me co’a sueca… e o resto ele adivinha.
Il m’a vu avec la suédoise et le reste il le devine.

*

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Un jour, je vais faire un scandale ici à bord,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Juste pour vous entendiez parler de moi un peu plus.
Não posso com a vida, e acho fatais
Je n’en peux plus de la vie, et je pense que sont fatales
As iras com que às vezes me debórdo.
Les colères qui parfois me débordent.

*

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Je passe la journée à fumer, à boire des choses,
Drogas americanas, que entontecem,
Des drogues américaines, qui enivrent,
E eu jà taõ bêbado sem nada ! Déssem
Et je suis déjà tellement ivre avec rien ! Pour cela
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
Pas de meilleur cerveau à mes nerfs de rose.

*

Escrevo estas linhas. Parece impossível
J’écris ces lignesIl semble impossible
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
Qu’avec autant de talent, je le sente à peine !
  O fato é que esta vida é uma quinta
Le fait est que cette vie est une béance
Onde se aborrece uma alma sensível.
 se perd une âme sensible.

*

 Os inglêses são feitos pra existir.
Les Anglais sont destinés à exister.
Não há gente como esta pra estar feita
Il n’y a pas de gens comme cela à fricoter
Com a Tranquilidade. A gente deita
Avec la Tranquillité. Une personne laisse
Um vintém e sai um deles a sorrir.
Une pièce et sort, une autre rentre en souriant.

*

Pertenço a um gênero de portuguêses
Je fais partie de ces Portugais
Que depois de estar a Índia descoberta
Qui, l’Inde ayant été découverte
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Se retrouvèrent sans travail. La mort est certaine.
Tenho pensado nisto muitas vezes.
J’y ai pensé plusieurs fois.

*

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Donnez au diable la vie et ce que les gens en font !
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Je ne lis pas le livre à mon chevet.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
L’Orient me dégoûte. C’est une natte
Que a gente enróla e deixa de ser béla.
Que nous avons roulée et qui en oubliera d’être belle.

*

Caio no ópio por força. Lá querer
Par force, je tombe dans l’opiumLà, vouloir
Que eu leve a limpo uma vida destas
Que je mette au propre une vie de cette sorte
Não se pode exigir. Almas honestas
On ne peut l’exiger. Âmes honnêtes
Com horas pra dormir e pra comer,
Avec des heures pour dormir et pour manger,

*

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Quelle distance la pause ! Et cela n’est finalement que de l’envie.
Porque estes nervos são a minha morte.
Parce que ces nerfs sont ma mort.
Não haver um navio que me transporte
N’y-a-t-il pas un navire qui me transporterai
Para onde eu nada queira que o não veja!
Là où je ne souhaite rien que je ne vois pas!

*

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Maintenant ! Je me fatiguerais de la même façon.
Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Je voudrais un autre opium, plus fort, envisager
Para sonhos que dessem cabo de mim
Des rêves qui donnent une fin de moi
E pregassem comigo nalgum lôdo.
Et me jettent dans la boue.

*

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Fièvre ! Si cela n’est pas de la fièvre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
Je ne sais pas comment vous avez de la fièvre et ce que vous sentez.
O fato essencial é que estou doente.
Le fait essentiel est que je suis malade.
Está corrida, amigos, esta lebre. 
C’en est fini, les amis, pour ce lièvre.

*

Veio a noite. Tocou já a primeira
Elle est venue, la nuit. A la première
Corneta, pra vestir para o jantar.
Cloche, pour qu’ils s’habillent pour le dîner.
Vida social por cima! Isso! E marchar
La vie sociale en plus ! Eh oui! et marcher
Até que a gente saia pla coleira!
Comme ces gens qui sortent par le collier !

*

Porque isto acaba mal e há-de haver
Parce que tout cela se terminera mal et il y aura
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
(Bonjour!) Du sang et un révolver, là pour la fin
Deste desassossego que há em mim
De cette agitation en moi
E não há forma de se resolver.
Et il n’y a pas moyen de s’y résoudre.

*

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
Et qui me regarde, doit me trouver banal,
 A mim e à minha vida… Ora! um rapaz…
Moi et ma vie Regarde ! un garçon …
O meu próprio monóculo me faz
Mon propre monocle me fait
Pertencer a um tipo universal.
Appartenir à un type universel.

*

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Ah ! Combien d’âme vivront, qui marchent nichés
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Tout comme moi sur la Ligne, et comme moi mystiques !
Quantos sob a casaca característica
Combien sous le manteau caractéristique
Não terão como eu o horror à vida?
N’auront pas, comme moi, l’horreur de la vie?

*

Se ao menos eu por fora fosse tão
Si seulement j’étais du dehors
Interessante como sou por dentro!
Intéressant comment je le suis à l’intérieur!
Vou no Maelstrom, cada vêz mais pró centro.
Je suis dans le Maelstrom, chaque fois plus près du centre.
Não fazer nada é a minha perdição.
Ne rien faire, voici ma perte.

*

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Un inutile. Mais il est si juste de l’être !
Pudesse a gente desprezar os outros
Nous pourrions regarder de haut les autres
E, ainda que co’os cotovêlos rôtos,
Et, tandis qu’avec nos coudes troués,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou bélo!
Être héros, loufoque, maudit ou beau !

*

Tenho vontade de levar as mãos
Je veux lever les mains
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Dans la bouche et les mordre à fond et me faire mal.
Era uma ocupação original
Ce serait une occupation originale
E distraía os outros, os tais sãos.
Et distrayant les autres, ceux qui se disent en bonne santé.

*

O absurdo, como uma flor da tal Índia
L’absurdité, comme une fleur d’une telle Inde
Que não vim encontrar na Índia, nasce
Je ne suis pas allé trouver en Inde, est
No meu cérebro farto de cansar-se.
Dans mon cerveau fatigué d’être fatigant.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a… 
Ma vie qu’il la change, Dieu, où qu’il en finisse…

*

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Qu’Il me laisse ici, dans ce fauteuil,
Até virem meter-me no caixão.
Jusqu’à ce qu’ils viennent me chercher avec le cercueil.
Nasci pra mandarim de condição,
Je suis né pour avoir une condition de mandarin,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.
Mais je manque de calme, de thé et de natte.

*

Ah que bom que era ir daqui de caída
Oh ! Combien ce serait bon de courir 
Prá cova por um alçapão de estouro!
Dans des trous par un piège  !
A vida sabe-me a tabaco louro.
La vie a le goût du tabac blond.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.
Je n’ai rien fait de plus que de fumer la vie.

*

E afinal o que quero é fé, é calma,
Et après tout ce que je veux, c’est la foi, et calmement,
E não ter estas sensações confusas.
Et ne pas avoir ces sentiments confus.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
Dieu, qu’Il en finisse avec çà ! Ouvrez les verrous
E basta de comédias na minh’alma!
Et assez de comédies dans mon âme!

**
TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

Escripto num livro abandonado em viagem Fernando Pessoa Traduction Française

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Escripto num livro abandonado em viagem 1928 Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Escripto Num Livro Abandonado Em Viagem
Ecrit dans un livre abandonné en voyage

*

1928

**

Venho dos lados de Beja.
Je viens du côté de Beja.
 Vou para o meio de Lisboa.
Je vais au cœur de Lisbonne.
 Não trago nada e não acharei nada.
Je n’apporte rien et je ne trouverai rien.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
J’ai une fatigue précoce pour ce que je vais ne pas vous trouver,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Et la nostalgie que je ressens ne vient ni du passé ni de l’avenir.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Je laisse écrite dans ce livre l’image de mon dessein mort :
FUI, COMO ERVAS, NÃO ME ARRANCARAM.
J’AI ETE, COMME L’HERBE, ET L’ON NE M’A PAS ARRACHE.

***
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

TABACARIA Fernando Pessoa Traduction Française Bureau de Tabac

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português

FERNANDO PESSOA
1888-1935

 

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

TABACARIA
Bureau de Tabac

1928

*

Fernando Pessoa Tabacaria Bureau de Tabac Artgitato Traduction Française

Não sou nada.
Je ne suis rien.
Nunca serei nada.
Je ne serai jamais rien.
Não posso querer ser nada.
Je ne peux vouloir être rien.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
A part ça, j’ai en moi tous les rêves du monde.

Janelas do meu quarto,
Fenêtres de ma chambre,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
De ma chambre comme un de ces millions d’humains qui ne sait  pas qui il est
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(Si on savait ce qu’il est, que saurions-nous ?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Vous ouvrez sur le mystère d’une rue sans cesse traversée,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Une rue inaccessible à toutes les pensées,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Réelle, incroyablement réelle, certaine, sans le savoir, certaine,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Avec le mystère des choses sous les pierres et les êtres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Avec la mort qui humidifie les murs et qui blanchit les cheveux,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Avec le Destin qui conduit le chariot de tout sur la route du rien.

*

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Aujourd’hui, je suis vaincu, comme si je connaissais la vérité.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Aujourd’hui, je suis lucide comme si je devais mourir,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Avec les choses, je suis désormais sans fraternité
 Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
Comme pour un adieu, alors que cette maison et ce côté de la rue
 A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
se transforment en une rangée de wagons, avec un départ en un coup de sifflet
De dentro da minha cabeça,
De l’intérieur de mon crâne,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Et une secousse de mes nerfs et un grincement de mes os au départ.

*

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Aujourd’hui, je suis perplexe, comme celui qui a pensé et trouvé et oublié.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
Aujourd’hui, je suis partagé entre la loyauté que je dois
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
au Bureau de Tabac de l’autre côté de la rue, comme une chose de l’extérieur réelle,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
et la sensation que tout est illusion, comme une chose de l’intérieur réelle.

*

Falhei em tudo.
J’ai échoué en tout.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
N’ayant fait aucune proposition, peut-être que tout cela n’était rien.
A aprendizagem que me deram,
Tout ce qu’on m’a appris,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
je les ai descendus par la fenêtre à l’arrière de la maison.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Je partis à la campagne avec de si grands projets.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
Et je n’ai trouvé seulement que des herbes et des arbres,
E quando havia gente era igual à outra.
et quand je rencontré des gens, ils étaient comme tout le monde.

*

 Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Je m’éloigne de la fenêtre pour m’asseoir sur une chaise. À quoi vais-je penser ?

*

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Que sais-je de ce que je serai, moi qui ne sais pas ce que je suis ?
 Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
Être ce que je pense ? Mais je crois être tant de choses !
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Et il y en a tant qui pensent être la même chose qu’il ne saurait y en avoir tant!
Gênio? Neste momento
Génie ? En ce moment
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
cent mille cerveaux se croient, en rêve, génies comme moi,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
et l’histoire n’en retiendra, qui sait ?, pas un seul ;
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Il n’en restera pas un, sinon le fumier de tant de conquêtes futures.
 Não, não creio em mim.
Non, je ne crois pas en moi.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Dans tous les asiles il y a tant de fous avec tant de certitudes !
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Moi, moi qui n’ai aucune certitude , suis-je plus assuré ou moins assuré ?
Não, nem em mim…
Non, ni en moi …
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
En combien de mansardes et de non-mansardes du monde
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
n’y a-t-il pas en ce moment des génies-pour-soi-même rêvant ?
 Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Combien d’aspirations hautes et nobles et lucides –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
Oui, véritablement hautes et nobles et lucides –
 E quem sabe se realizáveis,
Et, qui sait, qui pourraient se réaliser,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
Ne verront-elles jamais la lumière du soleil réel  et rencontreront-elles jamais une oreille attentive ?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
Le monde est pour celui qui naît pour le conquérir
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Et non pour qui rêve qu’il peut le conquérir, même s’il a raison.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
J’ai rêvé plus que Napoléon.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
J’ai serré sur mon cœur hypothétique plus d’humanité que le Christ,
 Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
j’ai fait des philosophies en secret que jamais Kant ne rédigea.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
mais je suis, peut-être serai-je toujours, le type de la mansarde,
 Ainda que não more nela;
Même si je n’y suis plus ;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
je serai toujours celui qui n’était pas né pour cela ;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
je serai toujours seulement celui qui avait du potentiel ;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
je serai toujours celui qui attendait qu’on lui ouvre la porte d’un mur sans porte
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
et qui chanta la chanson de l’Infini dans une basse-cour,
 E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Et qui entendit la voix de Dieu dans un puits condamné.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Croire en moi ? Non, ni en rien.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
Que me verse la Nature sur la tête brûlante
 
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
Son soleil, sa pluie, le vent qui rentre dans mes cheveux,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Et le reste qu’il vienne s’il le veut , ou qu’il ne vienne pas.
Escravos cardíacos das estrelas,
Esclaves cardiaques des étoiles,
  Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Nous avons conquis le monde avant de quitter l’alcôve ;
Mas acordamos e ele é opaco,
Mais nous nous réveillons et il devient sombre,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Nous nous sommes levés et il devient étrange,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Nous quittons la maison et il est la terre entière,
  Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
Plus le système solaire et la Voie Lactée et l’indéfini.

*

(Come chocolates, pequena;
(Mange les chocolats, petite ;
 
Come chocolates!
Mange les chocolats!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Sache qu’il
n’y a pas de la métaphysique dans le monde, mais des chocolats.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
 Sache que 
toutes les religions n’enseignent pas plus que la confiserie.
Come, pequena suja, come!
Viens, petite souillon,  et mange!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Ah ! si je pouvais manger
des chocolats avec la même vérité que toi !
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Mais je crois et, en enlevant le papier d’argent qui est une feuille d’étain,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Je dépose le tout au sol, comme j’ai fait de ma vie.)

**

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
Mais au moins il me reste l’amertume de ce que je ne serai jamais
A caligrafia rápida destes versos,
La calligraphie rapide de ces versets,
Pórtico partido para o Impossível.
Portique
parti vers l’impossible.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Mais au moins je me consacre un mépris sans larmes,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
Noble
au moins dans le geste éclatant que je lance
  A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
Le linge sale que je suis, dans le rôle,  dans le cours des choses,
E fico em casa sem camisa.
Et je reste à la maison le torse nu.

*

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
(Toi qui consoles,  qui n’existes pas et donc qui consoles,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou déesse grecque, conçue comme une statue qui serait vivante,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou patricienne romaine, incroyablement noble et néfaste,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou princesse des troubadours, très douce et colorée,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou marquise du XVIIIe siècle, décolletée et lointaine,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou célèbre courtisane du temps de nos pères,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Ou je ne sais quoi de moderne que je ne peux concevoir
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Tout cela, quel qu’il soit, tu l’es, et si tu peux m’inspirer ne te gênes pas !
Meu coração é um balde despejado.
Mon cœur est un seau renversé.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
Comme ceux qui invoquent les esprits invoquent les esprits, j’invoque
A mim mesmo e não encontro nada.
Pour moi-même et ne trouve rien.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Je viens à la fenêtre et je vois la rue avec une clarté absolue.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Je vois les magasins, je vois les trottoirs, je vois passer les voitures,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Je vois les êtres vêtus qui se croisent,
Vejo os cães que também existem,
Je vois les chiens qui existent également,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
Et tout cela me pèse comme une condamnation à l’exil,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Et tout cela m’est étranger, comme tout.)

*

Vivi, estudei, amei e até cri,
Je vécu, étudié, aimé et même cru,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Et aujourd’hui, il est pas un mendiant que j’envie simplement parce qu’il n’est pas moi
 Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
J’observe sur chacun les chiffons et les plaies et le mensonge,
  E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
Et je pense que, peut-être, n’as-tu jamais vécu, ni étudié, ni aimé, ni cru
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
(Car est possible de rendre la réalité de tout cela sans rien faire de tout cela);
 Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
Peut-être simplement existes-tu, comme un lézard à qui on a coupé la queue
 E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Avec cette queue du lézard qui court indépendamment du reste.

*

Fiz de mim o que não soube,
Je me suis fait avec ce que je savais pas faire.
 E o que podia fazer de mim não o fiz.
Et ce que j’aurais pu faire, ça je ne l’ai pas fait.
O dominó que vesti era errado.
Le costume que je portais n’était pas le bon.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
On m’a pris pour ce que je n’étais pas, je ne l’ai pas nié
et je me suis perdu.
Quando quis tirar a máscara,
Quand j’ai voulais enlever le masque,
Estava pegada à cara.
Il me collait au visage.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Lorsque j’ai pu le retirer, je me suis retrouvé devant le miroir,
Já tinha envelhecido.
J’avais vieilli.
 Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
J’étais ivre et je  ne savais pas reprendre le costume que je n’avais pas retiré.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Je jetai le masque et dormi dans le vestiaire
Como um cão tolerado pela gerência

Comme un chien toléré par la direction
Por ser inofensivo

Parce qu’inoffensif
 E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Et je vous écris cette histoire pour prouver combien je suis sublime.

*

Essência musical dos meus versos inúteis,
Essence musicale de mes versets inutiles,
 Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
Je souhaite me trouver comme quelque chose que j’ai réalisée,
 E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Et ne pas toujours rester en face du bureau de tabac d’en face,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Foulant aux pieds la conscience d’exister,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Comme un tapis sur lequel un ivrogne trébuche
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Ou un paillasson volé par des gitans et qui ne vaut rien.

*

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Mais le propriétaire du tabac est venu à la porte et se fixa à cette porte.
 Olho-o com o desconfôrto da cabeça mal voltada
Je le regarde avec effort par l’inconfort de cette tête vrillée
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Et par l’inconfort d’une âme mal-entendue.
 Ele morrerá e eu morrerei.
Il va mourir et je mourrai.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
Il quittera sa boutique, je vais laisser les vers.
  A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
A un moment, la tablette va mourir aussi, les vers ainsi.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
Après finira par mourir la rue elle-même où était la boutique,
E a língua em que foram escritos os versos.
Et la langue dans laquelle les vers ont été écrits.
  Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Mourra ensuite la planète tournoyante tout cela est arrivé.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Sur d’autres satellites d’autres systèmes quelque chose comme des gens
  Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Continueront à faire des choses comme des poèmes et vivrons dans  des choses comme des boutiques,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Toujours une chose face à l’autre,
 Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Toujours une chose aussi inutile que l’autre,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Toujours l’impossible aussi stupide que la réalité,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Toujours le mystère du fond aussi certain que le rêve du mystère de la surface. 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Toujours ceci ou toujours autre chose  ou ni une chose ni l’autre.

*

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
Mais un homme est entré dans le tabac (pour acheter du tabac?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Et la réalité plausible me frappe soudainement.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
Je me relève énergique, convaincu, humain,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Et je vais essayer d’écrire ces vers dans lesquels je dis le contraire.

*

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
Je brûle une cigarette en pensant à ma page d’écriture
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Et savoure la cigarette qui me libére toutes les pensées.
Sigo o fumo como uma rota própria,
Je suis la fumée comme un itinéraire personnel.
E gozo, num momento sensitivo e competente,
Et profite, dans un moment sensible et privilégié,
A libertação de todas as especulações
De la libération de toutes les spéculations
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Et la prise de conscience que la métaphysique est une conséquence d’un mal-être.

*

Depois deito-me para trás na cadeira
Ensuite, je me penche en arrière dans le fauteuil
E continuo fumando.
Et je continue à fumer.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
Bien que le Destin me le concède, je vais continuer à fumer.

*

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
(Si je me mariais avec la fille de ma blanchisseuse
Peut-être que serais-je heureux.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
Bon ! Je me lève de la chaise et je vais à la fenêtre.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
L’homme a quitté le bureau de tabac (en mettant la monnaie dans sa poche ?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
Oh, je le connais; C’est Esteves sans métaphysique.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
(Le propriétaire du tabac est venu à la porte.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Comme soumis à une volonté divine, Esteves se retourna et me vit.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Il m’a dit au revoir, je lui ai crié : « Salut l’Esteves ! », Et l’univers
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
S’est reconstruit en moi sans idéal ni espoir, et le propriétaire du tabac a souri.

*******
TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
*

Quero acabar entre rosas – Fernando Pessoa- Traduction Française – Je veux finir entre les roses

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia 
quero acabar entre rosas …

FERNANDO PESSOA
1888-1935

Quero acabar entre rosas Fernando Pessoa Artgitato Traduction Française Je veux finir entre les roses

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Quero Acabar entre Rosas
Je veux finir entre les roses

1932

Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Je veux finir entre les roses, parce je les aimais dans mon enfance.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Les chrysanthèmes après, je les effeuillais sans passion.
Falem pouco, devagar,
Parlez peu, lentement,
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
Que je n’entende pas, surtout par la pensée !
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Qu’ai-je désiré ? J’ai les mains vides,
Crispadas flèbilmente sobre a colcha longínqua.
Crispées fiévreusement sur la couverture lointaine.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
Ce que j’ai pensé ? J’ai la bouche sèche,  abstraite.
O que vivi? Era tão bom dormir!
Ce que j’ai vécu ? Il serait si bon de dormir !

**

TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
**

TRAPO Fernando Pessoa Traduction Française Loque

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português
Trapo Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
1888-1935

Trapo Fernando Pessoa Loque Artgitato Traduction Française

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

TRAPO
Loque

1931

*

O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.
A manhã, contudo, estava bastante azul.
Le matin, cependant, était dans le bleu.
O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Depuis ce matin, je suis un peu triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Anticipation? Tristesse ? Rien de tout ça ?
Não sei: já ao acordar estava triste.
Je ne sais pas: au réveil j’étais triste.
O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.

*

 Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Je sais: la pénombre de la pluie est élégante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Je sais: le soleil, parce qu’il est si ordinaire, accable les élégants.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Je sais: être sensible aux changements de lumière n’est pas élégant.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Mais qui dit que le soleil ou aux autres, que je voulais être à la mode ?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Donnez-moi le ciel bleu et le soleil visible.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Brouillard, pluies, obscurités cela, je l’ai en moi.

*

 Hoje quero só sossego.
Aujourd’hui, je veux juste du calme.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Je voudrais bien une maison, qui ne serait pas la mienne.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
J’en tombe de sommeil tellement je veux être calme.
Não exageremos!
N’exagérons pas!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
Je dors effectivement, sans explication.
O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.
Carinhos? Afectos? São memórias…
Caresses? Affections ? Ne sont que des souvenirs
É preciso ser-se criança para os ter…
Vous devez être un enfant pour y avoir droit
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
Mon aurore perdue, mon vrai ciel bleu!
O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.

*

 Boca bonita da filha do caseiro,
La jolie bouche de la fille de maison,
Polpa de fruta de um coração por comer…
La pulpe du fruit d’un cœur comme repas
Quando foi isso? Não sei…
C’était quand ? Je ne sais pas …
No azul da manhã…
Dans le bleu du matin

*

 O dia deu em chuvoso.
Le jour est venu à la pluie.

****

TRADUCTION Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

Ah, um soneto… Fernando Pessoa -Traduction Française : Ah, un sonnet …

LITTERATURE PORTUGAISE
Literatura Português
Poésie Portugaise- poesia português

FERNANDO PESSOA
1888-1935

Fernando Pessoa Ah un sonnet Ah um soneto Artgitato Traduction Française

Álvaro de Campos
(Heterónimo de Fernando Pessoa
Hétéronyme de Pessoa)

**

Ah, um Soneto…

*

Meu coração é um almirante louco
Mon cœur est un amiral fou
   que abandonou a profissão do mar
  qui a quitté la profession maritime
 e que a vai relembrando pouco a pouco
et qui va peu à peu se remémorant
  em casa a passear, a passear…
  en rentrant à la maison à pied, en marchant
*
No movimento (eu mesmo me desloco
Dans le mouvement (je me déplace

 nesta cadeira, só de o imaginar)
sur cette chaise, juste pour imaginer)
 o mar abandonado fica em foco
la mer abandonnée est au cœur
 nos músculos cansados de parar.

des muscles fatigués d’être inactifs.

*

Há saudades nas pernas e nos braços.
Il y a de la nostalgie dans les jambes et dans les bras.
 Há saudades no cérebro por fora.
Il y a de la nostalgie dans tout le cerveau.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Il y a de grandes colères faites de lassitude.

 *
Mas — esta é boa! — era do coração
Mais c’est extraordinaire ! C’était du cœur
 que eu falava… e onde diabo estou eu agora
dont je parlais … et où diable suis-je maintenant
com almirante em vez de sensação? …
 avec un amiral se substituant à la sensation ?
****
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO

Camões : Les Lusiades (Chant I, 1 à 8) OS LUSIADAS -Texte Bilingue de luis de Camoes

LITTERATURE PORTUGAISE
literatura português

Luis de Camões

Luis de Camoes Les Lusiades

OS LUSIADAS
(1556)

LES LUSIADES

CHANT I
Canto Primeiro

1

Des soldats dans des combats acharnés et féroces
As armas e os barões assinalados,
Des plages du Portugal d’où partirent nos frères
Que da ocidental praia Lusitana,
Par des mers avant nous vierges encore
Por mares nunca de antes navegados,
Au-delà de l’île de Ceylan, s’engouffrèrent
Passaram ainda além da Taprobana,
Par les périls et les guerres endurcis

Em perigos e guerras esforçados,
Plus que ne le permettait aucune force humaine d’ici
Mais do que prometia a força humana,
Et, parmi ces peuples lointains, ils édifièrent
E entre gente remota edificaram
Ce nouveau royaume qu’eux seuls sublimèrent ;
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E aussi les mémoires et le passé glorieux
E também as memórias gloriosas
De ces rois qui ont imposé au-delà des mers

 Daqueles Reis, que foram dilatando
Et la foi et l’Empire sur les terres
A Fé, o Império, e as terras viciosas
impies d’Afrique à d’Asie
De África e de Ásia andaram devastando;
Et aussi les œuvres et les actes valeureux
 E aqueles, que por obras valerosas
au-delà des lois même de la mort et de la vie
Se vão da lei da morte libertando;
C’est pour eux que je chanterai de toutes parts
 Cantando espalharei por toda parte,
M’accompagnant du seul génie et des arts.
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 3

Cessons de savoir qui des Grecs ou des Troyens
Cessem do sábio Grego e do Troiano
Fit le plus long et le plus difficile voyage

As navegações grandes que fizeram;
Qui d’Alexandre, de Trajan, ou d’autres anciens
 Cale-se de Alexandro e de Trajano
Eut la plus grandiose victoire avec une telle rage
A fama das vitórias que tiveram;
Je chante ici les enfants de Lusus et leurs victoires
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A qui obéirent et Mars et Neptune en pleine gloire
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Et pour qui la Muse a chanté les exploits fièrement
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Y  a-t-il en ce monde de plus grands évènements ?
 Que outro valor mais alto se alevanta.


4

Et vous, mes nymphes sorties du Tage maternel
E vós, Tágides minhas, pois criado
Vous m’enflammez  d’une ardeur nouvelle
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Ne laissez jamais retomber cette si grande ferveur
 Se sempre em verso humilde celebrado
En m’inondant maintenant de hauts faits glorieux
Foi de mim vosso rio alegremente,
Plongez-moi dans votre rivière en pleine splendeur
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Afin de me donner un style actuel et lumineux
Um estilo grandíloquo e corrente,
Afin que votre rivage fasse oublier à notre Apollon épique
Porque de vossas águas, Febo ordene
Les eaux d’Hippocrène, source des muses féériques.
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

 5

 Donnez-moi une grande et terrible fureur
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
Et laissez les sons rudes aux humbles labeurs

E não de agreste avena ou frauta ruda,
Afin que je souffle belliqueux dans le cor enflé
Mas de tuba canora e belicosa,
Jusqu’à ce que ma poitrine à ce point gonflée ;

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Engendre une  chanson telle qu’elle fera la puissance
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
De ton peuple, qui aida Mars à dompter sa violence ;

  Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Elle se propagera et se chantera  dans l’univers
Que se espalhe e se cante no universo,
A ce seul prix naîtront nos sublimes vers.
Se tão sublime preço cabe em verso.

6

Toi, Sébastien, qui nâquis entouré d’attention
E vós, ó bem nascida segurança
Dans ce Portugal libéré, protecteur
Da Lusitana antiga liberdade,
Qui attend et espère ta fougueuse ambition
E não menos certíssima esperança
Et pour ta religion, être une nouvelle naissance
De aumento da pequena Cristandade;
Toi, qui du Maure sera la nouvelle terreur.
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Merveilleuse vision de notre époque et de sa puissance
Maravilha fatal da nossa idade,
Arrivé au monde grâce à Dieu, tu partiras en quête
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
De laisser à Dieu de nouvelles conquêtes.
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7

Toi, nouvelle branche florissante et renommée
Vós, tenro e novo ramo florescente
Qui pousse sur la vision d’Alphonse lumineuse

De uma árvore de Cristo mais amada
A donné à cet arbre une allure majestueuse

 Que nenhuma nascida no Ocidente,
Que pas un César n’avait encore possédée  ;

 Cesárea ou Cristianíssima chamada;
Voyez le royal escudo qui représente l’exploit ;

(Vede-o no vosso escudo, que presente
Comment de Dieu, il entendit la voix,

  Vos amostra a vitória já passada,
Comment il donna une victoire à notre illustre Roi,

 Na qual vos deu por armas, e deixou
Etincelante en se guidant de la Croix.
 As que Ele para si na Cruz tomou)

8

Toi, puissant Roi, dont l’immense empire
Vós, poderoso Rei, cujo alto Imperio
S’étend des terres où le soleil inspire ;
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Aux terres du milieu de notre hémisphère
Vê-o também no meio do Hemisfério,
Jusqu’aux espaces où expirent les feuilles dernières
E quando desce o deixa derradeiro;
Toi, qui t’apprêtes à combattre pour l’Etat
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Le cavalier Chiite, le Turc et le Païen scélérat
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Qui étanchent leur soif dans le fleuve sacré
Do Turco oriental, e do Gentio,
Porte leur l’opprobre et ton joug pour l’éternité ;
Que inda bebe o licor do santo rio;

 *********************
Traduction Jacky Lavauzelle
ARTGITATO
*********************
luis de camoes literatura português os lusiadas