FERNANDO PESSOA TROIS CHANSONS MORTES Três Canções Mortas II

Trois Chansons mortes
Contemporanêa, n°7, janvier 1923

II

Eu tive um sonho. A aurora  
J’ai fait un rêve. L’aube
não podia se levantar    
Ne pouvait soulever
do frescor de outrora
La fraîcheur d’antan
neste meu sono singular.   
De mon singulier sommeil.

*

Em vão toda a sombra    
En vain toute ombre
foi abandonada na escuridão    
Était abandonnée dans l’obscurité
meu coração sobre a alfombra    
Mon cœur sur le tapis
aflita do meu coração.    
Affligé de mon cœur.

*

Ele morreu. o que resiste?    
Il est mort. Qui résiste ?
Existo para o que sobrou.    
J’existe pour ce qui reste.
Qual o quê? sou ainda mais triste…   
Qu’est-ce  ? Je suis encore plus triste …
Ah, apagado sonho se acabou.   
Ah ! Ce rêve caché se finissait.

*

Feito o momento tardonho    
Le temps passait vite
o coração menos esmorecido…    
Le cœur moins chancelant…
O que era enfim este sonho?    
Quel était finalement ce rêve ?
Eu não teria nunca sabido.
Je ne l’ai jamais su.

FERNANDO PESSOA

Três Canções Mortas